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Qual será o impacto da Inteligência Artificial no mercado de trabalho?

Publicado:
23/10/2019 às 21:33
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6 minutos

Poucos estudos acadêmicos geraram tanta repercussão na última década quanto “O Futuro do Emprego”, publicado há seis anos por Carl Benedikt Frey e Michael Osborne, dois professores da Universidade de Oxford. No paper, os economistas afirmam que até 47% dos empregos nos Estados Unidos correm o risco de sumir por causa da automação e dos computadores até meados da década de 2030. Inúmeros empregos desapareceram ao longo da história do capitalismo: pense nos homens que circulavam pelas ruas acendendo lampiões ou, num passado menos distante, nas operadoras de centrais telefônicas. Mas a hipótese mais pessimista descrita por Frey e Osborne é um cenário devastador, especialmente quando se considera que estamos falando dos próximos 15 anos.

 

De todas as inovações tecnológicas que prometem mudar o que entendemos por trabalho, a mais assustadora – e talvez a menos compreendida – seja a inteligência artificial, ou IA. Segundo uma pesquisa global do instituto de pesquisas Gartner, nove entre dez CIOs planejam investir em algum tipo de sistema de IA nos próximos três anos. Não há dúvidas de que as empresas apostam na inteligência artificial para aumentar a produtividade e reduzir custos. Mas o que essa corrida tecnológica vai representar em termos concretos para o emprego ainda é incerto. Os computadores estão ficando “inteligentes”? Sim. Mas essa inteligência é comparável à de uma criança de quatro anos de idade. Em termos de poder de processamento, bases de dados e horas de trabalho (de seres humanos de carne e osso, diga-se), um sistema de inteligência artificial tem de fazer um esforço hercúleo para conseguir identificar um gato numa foto.

Economistas afirmam que até 47% dos empregos nos EUA correm o risco de sumir por causa da automação e dos computadores até meados da década de 2030

Kevin Kelly, um dos pioneiros da internet e co-fundador da revista Wired, é considerado um dos maiores oráculos do Vale do Silício. Em suas concorridas apresentações, Kelly inevitavelmente fala de IA, e uma de suas analogias prediletas compara pássaros e aviões. “Os pássaros batem as asas para voar. Mas nós humanos tivemos de inventar outro jeito de voar – um jeito que não existe na natureza”. O mesmo vale para a inteligência artificial, argumenta Kelly: vamos inventar novas maneiras de pensar que não existem biologicamente e que não são como o pensamento humano. Um exemplo que já existe são os sistemas de big data, capazes de analisar e encontrar cruzamentos relevantes em enormes quantidades de dados, algo que seria – humanamente, com o perdão do trocadilho – impossível.

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Voltemos às fotos de gatos. Para “aprender” o que é um gato, um sistema de inteligência artificial precisa analisar quantidades imensas de informações para começar a criar suas regras internas que permitam diferenciar um gato de um cachorro, por exemplo. Como o software não sabe nada sobre animais, precisa estabelecer e refinar padrões estatísticos até ser capaz de proferir o veredicto “é um gato”. (A frase anterior descreve, grosso modo, o machine learning, ou aprendizado de máquinas). Já uma criança pequena consegue entender a diferença entre cães e gatos com base em alguns poucos exemplos desenhados. Alguns dias depois, ela também saberá apontar com confiança girafas, leões, elefantes, peixes, tubarões e baleias.

 

Essa limitação técnica da inteligência artificial é análoga à automação da manufatura. As máquinas podem substituir certas tarefas executadas por humanos, mas dificilmente fazem desaparecer categorias inteiras de empregos. Ou pelo menos as mudanças dessa grandeza não acontecem de uma hora para a outra, e este é outro ponto essencial no que diz respeito à inteligência artificial. Exportação de empregos, recriminação de imigrantes e demonização da globalização podem fazer sucesso no palanque de políticos populistas, mas muito mais importante é pensar agora nas medidas que podem ser tomadas para aliviar os efeitos do impacto da IA no mercado de trabalho.

 

Andrew Yang, empreendedor de sucesso na área de tecnologia que disputa a candidatura do Partido Democrata para e eleição presidencial americana, definiu o futuro do emprego (e os empregos do futuro) como parte fundamental de seu programa de governo. “Dirigir caminhões é o emprego mais comum em 29 estados americanos. Há 3,5 milhões de motoristas de caminhão neste país. E meus amigos na Califórnia estão pilotando caminhões autônomos”, disse Yang num debate recente. Apesar do tom alarmista – ele previu conflitos de rua provocados pelo desemprego em massa –, Yang vem colocando na agenda uma questão que deveria preocupar governos de todo o mundo: como preparar a força de trabalho para o futuro?

Andrew Yang vem colocando na agenda uma questão que deveria preocupar governos de todo o mundo: como preparar a força de trabalho para o futuro?

Como diz Kelly, não existe solução mágica. “Não se trata de uma questão técnica. Sabemos treinar grandes números de pessoas de uma vez, como fazemos nas Forças Armadas o tempo todo. A questão é política. Estamos dispostos a investir o tempo e o dinheiro necessários?” Enquanto os governos hesitam, as empresas se preparam por conta própria. Para ficar somente em um exemplo, Amazon anunciou um investimento de US$ 700 milhões em um programa de treinamento que vai envolver 100 mil funcionários ao longo dos próximos seis anos.

 

Ninguém em sã consciência acredita que uma conversa com a Siri ou com a Alexa vá resultar num diagnóstico médico – você vai continuar procurando seu clínico geral. Mas podemos enxergar um futuro em que relógios inteligentes meçam alguns parâmetros de saúde em tempo real, enviando tudo para um sistema de IA que vive na nuvem. Ainda no campo da medicina, nos últimos dois anos uma série de estudos vêm comparando análises de exames (como ressonâncias magnéticas ou tomografias) realizadas por humanos e por computadores – e, em muitos casos, as máquinas são mais precisas. O software não vai prescrever nem acompanhar tratamentos, mas será um apoio essencial para os médicos. “A inteligência artificial não vai acabar com empregos, mas sim servir de complemento aos trabalhadores”, diz Robert Atkinson, presidente do centro de estudos Information Technology and Innovation Foundation.

 

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