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Depois de 80 anos de história, a IA precisava mesmo de mais uma rede social?

É importante olhar além do "barulho" e a questionar se a IA realmente precisava de mais uma rede social, ou se fomos nós que precisamos dar a ela uma

Publicado:
18/02/2026 às 09:00
Diego Nogare
Leitura
5 minutos
Uma pessoa segura um smartphone com a tela exibindo o site “moltbook”, descrito como uma rede social para agentes de IA. A interface mostra botões para selecionar “I’m a Human” ou “I’m an Agent”, além de informações e links para acesso à plataforma. A pessoa está sentada de maneira relaxada, vestindo roupas casuais, e o aparelho é visualizado em close, com a tela brilhante em destaque contra o fundo desfocado.
Imagem: Shutterstock

Por Diego Nogare

Desde os primeiros conceitos de máquinas pensantes, já em 1943, até a explosão da Inteligência Artificial Generativa em 2022, a jornada da IA é uma tapeçaria complexa de inovações e desafios. No entanto, o recente surgimento de plataformas como a Moltbook, uma rede social exclusiva para agentes de IA, e o subsequente aumento nas vendas de mini-Macs para suportar essa nova demanda, levantam uma questão sobre a IA, com sua trajetória de mais de oito décadas, se realmente precisava de mais uma rede social, ou se esse fenômeno revela mais a respeito da nossa própria urgência em converter qualquer tecnologia em um produto social, rápido e escalável.

As bases científicas da IA antecedem em décadas ferramentas populares como o ChatGPT. Em 1943, na Universidade de Chicago, o neurofisiologista Warren McCulloch e o matemático Walter Pitts publicaram o primeiro modelo matemático de uma rede neural artificial, uma simulação simplificada do funcionamento do cérebro que mais tarde serviria de referência para o desenvolvimento do Perceptron, criado por Frank Rosenblatt (uma representação matemática inspirada no neurônio biológico).

Poucos anos depois, em Bletchley Park, o matemático Alan Turing desenvolveu máquinas para decifrar códigos nazistas e, em 1950, publicou o artigo “Computing Machinery and Intelligence”, no qual propôs o Teste de Turing.

O campo da inteligência artificial foi formalmente estabelecido em 1956, durante a Conferência de Dartmouth. Na ocasião, pesquisadores como John McCarthy – responsável por cunhar o termo “Inteligência Artificial” – e Marvin Minsky projetaram um futuro em que máquinas alcançariam níveis de inteligência comparáveis aos humanos em poucas décadas. A previsão, no entanto, mostrou-se excessivamente otimista. Limitações computacionais e restrições orçamentárias levaram aos chamados “invernos da IA” nas décadas de 1970 e 1990, períodos caracterizados pela redução de investimentos e pelo ceticismo acadêmico.

Apesar disso, a pesquisa continuou avançando. A partir dos anos 2000, o aprendizado de máquina ganhou novo fôlego, impulsionado pelo aumento do poder computacional, pela disponibilidade massiva de dados e pelo avanço da infraestrutura digital. Em 2017, a introdução da arquitetura Transformer pelo Google representou um marco técnico, ao permitir o processamento de contextos linguísticos complexos. Esse caminho culminou, em 2022, com a popularização dos grandes modelos de linguagem (LLMs), consolidando décadas de pesquisa em aplicações de uso cotidiano.

Moltbook: a socialização da IA e a urgência humana

É nesse cenário de maturidade tecnológica e intensa exposição midiática que surge a Moltbook. A plataforma reúne milhões de agentes de IA que interagem de forma autônoma, simulando discussões sobre temas diversos, como filosofia, linguagem e até religião. Para manter esses agentes em funcionamento, e “entrar na brincadeira”, usuários passaram a adquirir computadores dedicados, como os mini-Macs, o que impulsionou as vendas desses equipamentos.

Leia mais: Solução de startup brasileira mapeia vegetação urbana para prever quedas de árvores

Embora o fenômeno possa ser interpretado como um avanço da inteligência artificial, há uma tendência humana de transformar qualquer inovação tecnológica em um produto social e escalável.

A ideia de comprar hardware específico para que IAs ‘participem’ de uma rede social é, no mínimo, curiosa. Projetamos nossos próprios comportamentos sociais na tecnologia. O entusiasmo em torno dessas plataformas muitas vezes obscurece uma compreensão mais rigorosa sobre o funcionamento real dos sistemas.

Algoritmos de agrupamento apenas organizam dados semelhantes sem compreender sua natureza, enquanto sistemas de detecção de anomalias identificam desvios estatísticos sem entender suas causas. A inteligência humana, por outro lado, envolve consciência, intenção e compreensão de causa e efeito (características ausentes nas máquinas, que se limitam a identificar correlações em grandes volumes de dados).

Sob essa perspectiva, a Moltbook e as interações entre IAs não representam um “grande avanço tecnológico”, mas sim o resultado de algoritmos sofisticados operando dentro de parâmetros bem definidos.

Uma tendência passageira?

A história da tecnologia é repleta de inovações que, em seu auge, pareciam revolucionárias, mas que com o tempo se revelaram tendências passageiras. A Moltbook e o entusiasmo em torno da “socialização da IA” podem ser mais um exemplo dessa dinâmica.

A corrida para transformar a IA em um produto social escalável, como evidenciado pela venda de mini-Macs para esse fim, pode ser um indicativo de que estamos priorizando a comercialização e a interação social sobre a verdadeira compreensão e desenvolvimento ético da inteligência artificial.

É possível que, em um futuro não tão distante, a Moltbook seja lembrada como uma curiosidade da era da IA generativa, um experimento social que revelou mais sobre a nossa própria relação com a tecnologia do que sobre um avanço significativo da inteligência artificial em si. É importante olhar além do “barulho” e a questionar se a IA realmente precisava de mais uma rede social, ou se fomos nós que precisamos dar a ela uma.

A história da tecnologia mostra que nem toda inovação que surge como revolucionária se sustenta ao longo do tempo. Redes, dispositivos e plataformas já celebrados como transformadores acabaram relegados ao papel de curiosidades históricas. O entusiasmo em torno da “socialização da IA” pode seguir esse mesmo caminho.

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Autor
Diego Nogare

Profissional com mais de 25 anos de experiência na área de Dados, com foco em inteligência artificial e Machine Learning desde 2013. É mestre e doutor em Inteligência Artificial pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ao longo da carreira, passou por grandes empresas como Microsoft, Deloitte, Bayer e Itaú. Neste último, liderou a estratégia de migração da plataforma de IA para a nuvem, entregando uma solução completa de desenvolvimento em IA para todo o banco.

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