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profissionais de TI

Do ensino básico à requalificação: como o Brasil pode superar o déficit profissional de TI

O déficit de talentos em tecnologia não é apenas uma estatística preocupante, é um risco direto à competitividade do Brasil no cenário global

Publicado:
29/12/2025 às 18:00
Ricardo Scheffer e Roberta Piozzi
Leitura
5 minutos
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Imagem: Shutterstock

Por Ricardo Scheffer e Roberta Piozzi

Embora a tecnologia avance a passos largos, a formação de talentos em TI continua sendo um ponto frágil no Brasil. O cenário se agravou no pós-pandemia, quando a aceleração da digitalização não foi acompanhada pela qualificação necessária para sustentar esse movimento. O mais recente relatório da Brasscom (Perspectivas do Mercado de Trabalho do Macrossetor TIC – 2025) revela um descasamento de 30,2% entre oferta e demanda. Entre 2019 e 2024, o setor demandou 665 mil profissionais, mas apenas 464 mil foram formados.

Ao contrário do que podemos imaginar, o problema não está apenas na quantidade de formados, mas na adequação da formação ao que o mercado exige. Ainda existe um descompasso entre o que é ensinado em sala de aula e as competências técnicas e comportamentais que as empresas de fato buscam. Além disso, a baixa oferta de vagas de entrada limita a inserção de novos talentos, o crescimento da informalidade tem avançado mais rápido do que os vínculos formais e barreiras regulatórias acabam dificultando a contratação de profissionais em formação, especialmente no modelo de ensino técnico e profissionalizante. Outro problema é a ausência de políticas públicas específicas para facilitar a transição da formação para o trabalho, como incentivos para primeiro emprego.

Leia também: Skyone recebe investimento da Advent para avançar em expansão e M&As

Essas lacunas são agravadas pelo avanço da inteligência artificial generativa, que já está reconfigurando funções e elevando a demanda por habilidades como pensamento crítico, criatividade e aprendizado contínuo. Essas competências, no entanto, ainda não estão plenamente integradas à formação tradicional. O resultado é um mercado que cresce em sofisticação, mas que não encontra, na mesma velocidade, profissionais preparados para acompanhar sua evolução.

O impacto não se restringe à indústria da tecnologia. Hoje, toda empresa é também uma empresa de tecnologia, pois automação, dados, nuvem e inteligência artificial permeiam todos os segmentos. Sem profissionais qualificados, as empresas perdem competitividade, o mercado nacional desacelera e o país sofre com perda de produtividade e inovação. O peso econômico é evidente: de acordo com o Relatório Setorial 2025 do Macrossetor TIC da Brasscom, o mercado movimentou mais de R$ 760 bilhões em 2024, o equivalente a 6,5% do PIB (Produto Interno Bruto), empregando mais de 52 mil  pessoas, com salários médios mais que o dobro da média nacional. Até 2028, a expectativa é de R$ 774 bilhões em investimentos em tecnologias digitais. No entanto, sem mão de obra preparada, esses recursos correm o risco de se transformar em desafio, e não em alavanca de crescimento.

A solução passa por mobilização de múltiplos atores. O Fórum Econômico Mundial estima que 60% da força de trabalho global precisará ser requalificada até 2027, e que quase metade das habilidades atuais deve deixar de ser relevante nesse mesmo período. Isso significa que governos, instituições de ensino e empresas precisam trabalhar de forma integrada para formar, requalificar e atualizar profissionais em ritmo compatível com a transformação digital. No âmbito corporativo, as áreas de treinamento e desenvolvimento passam a ter papel central, deixando de atuar apenas de forma operacional para se tornarem motores de inovação, performance e retenção de talentos.

Diversos países já mostram caminhos possíveis. A Coreia do Sul, por exemplo, tornou obrigatória a educação em codificação nas escolas básicas e incluiu inteligência artificial no ensino médio, expandindo gradualmente a presença da tecnologia na formação desde a infância. Em Singapura, portais de emprego e programas estruturados de bolsas, coding e aceleração de habilidades digitais são conduzidos pela autoridade nacional de mídia e tecnologia, com forte envolvimento entre Estado e mercado.

Já a França promove a capacitação de professores com plataformas gratuitas como o Wallcode, voltadas ao letramento digital e ao pensamento computacional. E nesta linha, a Suíça, por meio do Swiss Advanced Manufacturing Center, oferece capacitação técnica em novas tecnologias aplicadas à indústria, com foco em atualização contínua da força de trabalho. Essas referências ajudam a embasar estratégias brasileiras, reconhecendo a necessidade de investir em formações práticas, letramento digital de professores, requalificação profissional e conexão direta entre capacitação e oportunidades de trabalho.

No Brasil, o Plano Brasil Digital 2030+ da Associação BD30+, liderado pela Brasscom, surge como uma oportunidade de alinhar esforços e construir uma agenda de transformação coordenada, inclusiva e sustentável. A iniciativa foi entregue ao governo como uma proposta intersetorial para estruturar a digitalização do país. Para que seja eficaz, porém, deve se traduzir em programas práticos de formação e empregabilidade que conectem educação, setor produtivo e sociedade.

O déficit de talentos em tecnologia não é apenas uma estatística preocupante, é um risco direto à competitividade do Brasil no cenário global. A capacitação em tecnologia é uma necessidade estratégica, social e econômica. Portanto, requalificar profissionais, formar desde a base e atualizar continuamente competências não é apenas uma recomendação, mas uma condição de sobrevivência para as empresas e para o país, que tem potencial para se tornar um exportador de talentos tecnológicos.

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Ricardo Scheffer e Roberta Piozzi

Ricardo Scheffer é CEO da SONDA do Brasil, líder regional em serviços de Transformação Digital, e Roberta Piozzi é diretora de parcerias e projetos em educação da Brasscom.

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