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  3. Computadores VI: Digitalizando sons

Computadores VI: Digitalizando sons

Publicado:
04/02/2011 às 16:04
Leitura
8 minutos
Computadores VI: Digitalizando sons

Nas duas últimas colunas examinamos o processo de digitalização de imagens. E mencionamos que qualquer grandeza do mundo real pode ser digitalizada, ou seja, convertida em números que podem ser expressos no sistema binário e, portanto, processados por um computador. Mas seria isso realmente possível? Como digitalizar, por exemplo, sons?

Computadores são um fenômeno recente. Portanto não é de admirar que a digitalização de sons também o seja. Na verdade, foi apenas em 1983 que os primeiros discos com som digitalizado foram produzidos graças à uma tecnologia desenvolvida pelas empresas Sony e Phillips. Quando comparados aos discos de vinil que se usavam na época, os discos de áudio digital eram menores, mais compactos e por isso receberam o nome de “discos compactos”, ou Compact Disks, e passaram a ser conhecidos apenas por “CDs”.

Sim, é isso mesmo, os CDs que usamos hoje para dados nada mais são que a transposição para armazenamento de dados e informações da tecnologia usada para armazenar música digitalizada. Afinal, depois de digitalizada, toda informação é representada por números, e portanto nada impede que se use a mesma tecnologia de armazenamento para qualquer tipo de dado, música, imagens ou seja lá o que for.

É fato que os primeiros CDs de áudio não foram feitos para serem reproduzidos em um computador pessoal. Na verdade, no que diz respeito à reprodução de sons, os computadores pessoais do início da década de oitenta eram máquinas toscas. Seu pequeno alto-falante somente reproduzia bipes, que eram usados principalmente como alarme e aviso de erros. Mas os reprodutores de CDs (“CD players”) da época adotavam rigorosamente a mesma tecnologia empregada pelos modernos computadores multimídia para a reprodução de sons.

Mas voltemos ao que interessa: como digitalizar sons?

Aquilo que conhecemos como “som” na verdade nada mais é que uma sucessão de compressões e descompressões do ar. Ou seja: som é ar que vibra. Me refiro, evidentemente, ao som que se propaga no ar. Para o indivíduo mal-educado que encosta o ouvido à parede para ouvir o que se fala do outro lado, som é a parede que vibra. Para quem está mergulhando próximo ao fundo de uma piscina e ainda assim consegue ouvir os ruídos do ambiente acima dele, som é água que vibra. Em suma: som é algo que vibra e se propaga seja pelo ar, através de compressões e descompressões, seja através de um material sólido ou líquido, que vibra em consonância com o som produzido.

ANIMAÇÃO FLASH – clique para ver

Figura 1: Formação de um som

Repare na animação da Figura 1. Imagine que a linha marrom que se encurva para cima e para baixo seja, por exemplo, uma corda de violão ou piano, vibrando após ter sido tangida. As linhas azuis representam as camadas de ar que se situam entre a corda que vibra e seu ouvido. Note que quando a corda se encurva para cima, no sentido de seu ouvido, ela “empurra” as camadas de ar umas contra as outras, aumentando a pressão. Já quando a corda vibra no sentido contrário, ela “puxa” o ar, distendendo-o (não se esqueça que o ar é um gás elástico; é por isso que bolas de futebol “quicam”) e reduzindo a pressão. E na medida que a corda vibra em ambos os sentidos, a pressão aumenta e diminui de acordo com esta vibração. Seu ouvido é, na verdade, um instrumento de extrema precisão capaz de medir as menores variações da pressão do ar. Veja, do lado direito da animação, um gráfico da variação desta pressão sincronizado com o movimento da corda. Quando a corda sobe, aumentando a pressão, a linha marrom se projeta para cima até atingir ponto máximo quando a corda atinge sua curvatura máxima. Em seguida a pressão começa a diminuir, chegando a zero, quando a corda fica completamente estendida na horizontal, e passando a partir de então a assumir valores negativos até o valor mínimo, que corresponde à curvatura máxima da corda no sentido oposto. O vai-vem da corda, que comprime e descomprime o ar, se reflete no gráfico em forma de onda do lado direito da figura. É assim que se forma uma “onda sonora”. Note que a difusão de ciclos de compressão-descompressão ao longo de um meio elástico nada mais é que a propagação de uma forma de energia, a energia sonora. Essas compressões e descompressões penetram no nosso pavilhão auricular, se propagam em seu interior até incidir sobre uma fina membrana chamada “tímpano” situada no limite do chamado “ouvido externo” (na verdade, ela o separa do ouvido médio), fazendo-a vibrar. A vibração do tímpano se propaga até as terminações nervosas do ouvido interno que a conduz ao cérebro. Que então “traduz” aquelas vibrações nos sons que percebemos.

Todo som tem duas características básicas: intensidade (que nos permite distinguir entre um som forte ou fraco; um grito é um som mais intenso que um sussurro) e altura (que nos permite distinguir entre um som grave e agudo; o trinado de um pássaro é mais agudo que o rosnar de um cão). É preciso ter cuidado com esses conceitos, já que na linguagem popular diz-se que um som é “alto” querendo com isso dizer que ele é intenso. “Abaixar” o rádio, para o leigo, significa reduzir a intensidade do som, não sua altura.

As variações de intensidade e altura dos sons se refletem na forma de suas ondas. Veja na Figura 2 a diferença entre as formas das ondas de sons de diferentes intensidades e alturas. No alto estão representadas formas de onda de sons de mesma altura e diferentes intensidades (o da esquerda é mais intenso, ou seja, mais forte) e embaixo sons de mesma intensidade e diferentes alturas (o da direita é mais alto, ou seja, mais agudo). Como se pode depreender do exame da Figura 2, a intensidade do som depende da amplitude da onda (ou seja, de quanto seus picos e vales se afastam da linha base) enquanto a altura depende da freqüência da onda, ou seja, do número de vezes que ela vibra na unidade de tempo.

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Isso não é apenas teoria. Os sons que ouvimos na vida real são mesmo representados por ondas como as mostradas na Figura 2. A diferença é que qualquer uma das quatro ondas sonoras representadas na Figura 2 correspondem a sons cuja intensidade e altura não variam ao longo do tempo (ou seja, cujas amplitude e freqüências se mantêm constantes) e portanto produzem um som monótono (de apenas um tom), que não se altera, como um diapasão vibrando sempre na mesma intensidade. Já as ondas que representam os sons da vida real mostram variações tanto na intensidade (amplitude) quanto na altura (freqüência), assumindo um formato menos regular.

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A Figura 3 mostra a forma de onda de um som simples, um mero “bump”, cuja simplicidade se reflete na relativamente pequena variação do formato da onda sonora. Se você quiser ter idéia do som a que corresponde esta forma de onda, clique no ícone do Objeto 1.

ARQUIVO DE SOM – 5k – clique para ouvir

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Já a Figura 4 corresponde a um som mais complexo, um som que, aposto, você conhece bem (talvez não goste dele, mas garanto que conhece). Para ouvi-lo, clique no ícone do Objeto 2 e compare a diferença entre ele e o correspondente ao Objeto 1.

ARQUIVO DE SOM – 414k – clique para ouvir

Objeto 2: Som correspondente à onda da Figura 4

Repare na maior riqueza de acordes, na variação da intensidade e, sobretudo, da freqüência (que se manifestam pelas diferentes “notas musicais” contidas nos sons). Depois, veja como essa maior riqueza se reflete na complexidade do formato da onda representada na Figura 4.

Do que vimos aqui podemos concluir que, não importa qual seja seu grau de complexidade, todo e qualquer som pode ser fielmente representado por uma onda sonora. Não importa que seja um grito de dor, um mavioso trinado de um pássaro ou uma sublime melodia, seja ele qual for, haverá uma onda cujo formato o representará.

Falta ver como poderemos exprimir essa onda usando apenas números.

Coluna anterior: Ainda Digitalizando imagens Próxima coluna: Digitalizando sons – Final

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