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Datilografia na era digital

Como o Freewrite coloca em xeque é a ideia de que o ambiente em que trabalhamos seja produtivo para quem escreve

Publicado:
02/03/2016 às 07:15
Leitura
4 minutos
maquina_de_escrever.jpg

Será interessante acompanhar a trajetória do Freewrite, lançado pela Astrohaus Office como “a primeira máquina de escrever digital à prova de distrações”. Com o visual de uma máquina de escrever portátil, equipada com um teclado mecânico e uma tela para visualizar o texto digitado, ela serve apenas para escrever. Não permite consultar e-mail, navegar na internet nem postar em redes sociais. Ela apenas se conecta com a rede para acessar a nuvem onde arquiva os textos. É abastecida por uma bateria que pode durar semanas com uma carga. Com esses atributos, ela certamente não vai se tornar um produto de consumo de massa como os tablets. A dúvida é se terá força disruptiva suficiente para criar o seu próprio nicho de mercado ao propor uma nova (ou será a velha e boa?) maneira de escrever.

O que o Freewrite coloca em xeque é a ideia de que o ambiente em que trabalhamos seja produtivo para quem escreve. De fato, temos acesso a inumeráveis fontes de pesquisa na internet, os aplicativos de edição estão repletos de ferramentas e facilidades, as máquinas têm um poder cada vez maior de processamento etc. etc. O problema é que esse pacote gera um excesso de estímulos. A máquina nos lembra de olhar os e-mails, checar as notícias, ver as novidades na rede social, avaliar uma promoção. “Escrever num laptop conectado à web é tão fácil como meditar num cassino”, escreve Tim Moynihan, na reportagem da Wired sobre o Frewrite.

Os criadores do Freewrite, Adam Leeb, projetista mecânico do MIT, e Patrick Paul, desenvolvedor de programas da Michigan State, não estão sozinhos nessa empreitada. Primeiro, porque conseguiram convencer os investidores de que a sua ideia merecia ser transformada em produto. Na fase de desenvolvimento do projeto, em 2014, conseguiram arrecadar 342 mil dólares numa campanha de contribuições através da plataforma Kickstarter. Segundo, porque há outros produtos que surfam nessa onda.

Leitores eletrônicos, como o Kindle, por exemplo, conquistaram o público com a ideia de que são dispositivos feitos unicamente para ler livros. Utilizam telas com a tecnologia EInk (a mesma usada no Freewriter), que não emitem luz e tornam a leitura confortável o suficiente para que alguém se disponha a ler um romance de milhares de páginas – o que seria muito desagradável em um tablet ou notebook.

Existem softwares alternativos para processamento de textos, como Scrivener ou Final Draft, que também se guiam por essa cartilha. Eles conseguem atender aquela fração do público que é muito pequena para merecer atenção do líder de mercado, o Microsoft Word, e garantem assim seu lugarzinho ao sol. Essa afinidade é explicitada pelos criadores do Freewrite, que o chamam de Kindle da escrita e acenam aos desenvolvedores interessados em integrar a sua máquina de datilografia digital ao Scrivener e ao FinalDraft. Eles estão de olho no mesmo perfil de consumidor.

O saudosismo que embala o Freewrite é um tributo merecido à história da máquina de escrever. Ela foi lançada no século 19 e só se aposentou no final do século 20 com a chegada dos computadores pessoais. Como produto, teve tempo para atingir o máximo em termos de funcionalidade mecânica. Seu teclado, por exemplo, foi desenhado levando-se em conta a frequência de uso das letras na escrita e a necessidade de poupar, ao datilógrafo que digita com as duas mãos, o uso de dedos mais frágeis, como os mindinhos. Esse mesmo layout de teclado, que era genial, tornou-se disfuncional em gadgets como celulares e tablets.

Até agora, a indústria não conseguiu oferecer uma solução aceitável para as pessoas escreverem com dois dedos, como usualmente se faz nos celulares. Os pobres consumidores, hipnotizados pela miríade de recursos de seus aparelhos, perdem tempo enorme redigitando o que escrevem. Ou mandam mensagens incompreensíveis, editadas por pretensos corretores ortográficos.

Esses e outros gaps tecnológicos são campo fértil para novos produtos e futuras disrupturas.

*Arie Halpern é diretor da Gauzy Technologies.

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