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Defasagem cibernética afeta operação de setores críticos à infraestrutura do país

Variáveis de crescimento das ameaças e sucesso dos ataques ultrapassam capacidades de contenção, expondo gap tecnológico

Publicado:
23/12/2021 às 15:01
Leitura
5 minutos

Terminando um ano de grandes desafios, incertezas e diagnósticos de tendencias das mais diversas fontes. Um fato, porém, tornou-se claro e posso afirmar os paradoxos atuais: nunca tivemos um período em que as empresas buscam freneticamente digitalizar suas plataformas de negócios, atingir mais mercados e clientes, reduzir custos operacionais além de tentar manter ou, em sendo possível, expandir posição competitiva.

Bancos e fundos de investimentos efetuaram transações recordes em volumes financeiros em novas empresas de segurança cibernética e/ou promoveram fusões entre os grandes players e tecnologias emergentes.

No entanto jamais houve um ano com praticamente diários registros de ocorrências de ataques, indisponibilidades de sistemas de empresas de médio a grande porte afetando incontáveis cadeias produtivas, milhões de usuários/consumidores e os resgates através de ransomwares atingindo valores crescentes e sempre pagos em criptomoedas, apenas para citar os mais relevantes.

O desequilíbrio está evidente e segue as diretrizes das minhas previsões em “Risco Digital”. A abrupta pandemia obrigou a transferência de várias cadeias produtivas para ambientes predominantemente digitais e a revisão obrigatória dos modelos de negócios. Nessa inesperada dança das cadeiras aqueles setores que já estavam num grau de maturidade mais avançado, como o financeiro, na adoção de novas tecnologias de segurança e gestão de riscos cibernéticos, puderam reduzir inúmeras etapas, porém também enfrentando dilemas para se manterem operacionalmente ativos e relevantes num ambiente de forte concorrência versus novos players.

Em contrapartida o setor de energia apresenta um grave risco operacional. São múltiplas as causas, que vem desde um histórico “gap” tecnológico gerado por múltiplas causas que tem em comum a percepção de não ser um alvo tradicional para ataques. Desde que as milicias digitais receberam capital e motivação ideológica para estruturar campanhas visando ganhos financeiros crescentes toda a estrutura da segurança cibernética foi e está sendo diariamente alterada.

Antes da pandemia apenas as divisões militares cibernéticas, como o APT30 entre outras, tinham a sua disposição poder computacional e tempo para estruturar ataques envolvendo disputas geopolíticas não tendo necessariamente o objetivo de ganho monetário imediato. As criptomoedas e seu anonimato (não há transferência financeira, sendo na pratica uma movimentação de software não rastreável) associada a capacidade de lançar ataques ransonware contra alvos menos protegidos e em geral com grande possibilidade de propagação nas cadeias produtivas ou no impacto aos consumidores tornaram o setor de energia como um target obvio.

Pesquisa recente da consultoria estratégica McKinsey destaca três fatores principais: milicias percebem o grande valor econômico, direto e indireto destes alvos; expansão geográfica e complexa estrutura organizacional e finalmente a dependência intrínseca do setor entre os domínios físico e cibernético. No setor elétrico as invasões têm o potencial de afetar os quatro principais componentes: geração, transmissão, distribuição e redes de usuários.

Desde o ataque a SolarWinds ficou claro que as milicias buscam alvos com grande capacidade de multiplicação, ou seja, desde uma pequena e aparentemente inofensiva vulnerabilidade como o mais recente “Log4j”; uma falha crítica recentemente revelada em um software amplamente usado que está abalando a Internet ou um simples patch não atualizado mas que tem um poder de propagação passível de atingir o maior número de usuários e sistemas, percebo que a grande maioria dos gestores e conselhos destas empresas ainda não entenderam o quão frágeis e expostos estão seus sistemas e portanto operações neste novo cenário.

Não apenas, vamos chamar da “entidade target principal”, mas todos os milhares de fornecedores, usuários e colaboradores conectados. Por exemplo nesta última semana o secretário de Segurança Interna do Escritório de Patentes e Marcas dos EUA, Alejandro Mayorkas, decidiu fechar temporariamente o acesso externo a todos seus sistemas. Segundo suas palavras a CNN: “O desafio que isso representa é a prevalência, porque eles atacaram um software que é onipresente, e então há uma vulnerabilidade que foi exposta e outros podem entrar na exploração dessa vulnerabilidade e realmente multiplicar os danos.”

Concordo plenamente com sua visão que reforça minhas preocupações. As milicias criaram modelos de negócios onde hackers de todo mundo colaboram em comunidades na dark-web, e compartilham casos de sucesso, técnicas bem-sucedidas e ganhos financeiros atuando de forma estruturada nas campanhas.

Nos artigos anteriores descrevi alguns destes grupos como o REvil por exemplo, sendo os resgates médios entre U$ 5 – 45 milhões.  Com a aceleração da digitalização dos negócios para atender uma demanda crescente, a equação a ser resolvida rapidamente terá de encontrar um ponto de viabilidade entre a redução do ‘gap” tecnológico atual, colaboração com todos os atores da cadeia produtiva associada aos quatro principais componentes e obtenção de criticidade junto ao conselho e investidores para receber os recursos necessários para minimizar as perdas potenciais.

* Leonardo Scudere é Cyber Security Sales & Strategy; Risk Management; Digital Transformation Executive – THUNDERBIRD, the American Graduate School of International Management

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