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Depois de ataque hacker, Ashley Madison retoma crescimento com foco no Brasil

Brasil é o 2º maior mercado global da plataforma. Em entrevista ao IDG Now!, CEO da companhia, Ruben Buell, fala sobre infidelidade e cibersegurança

Publicado:
01/12/2018 às 12:21
Leitura
9 minutos
Depois de ataque hacker, Ashley Madison retoma crescimento com foco no Brasil

Em 2015, o site Ashley Madison sofreu uma das mais graves brechas de segurança da história que colocou o serviço de encontros extraconjugais e seus usuários sob a luz dos holofotes. Hackers expuseram dados sensíveis de mais de 32 milhões de usuários e tornaram públicas informações como nomes, endereços, status civil e preferências sexuais dos assinantes. O episódio chegou a ser responsabilizado por divórcios, demissões e até mesmo por suicídios.

Com a invasão, o grupo autointitulado “Impact Team” buscava que a empresa canadense tirasse o site do ar sob a justificativa de que o serviço era amoral e abusava da confiança de seus usuários. No mesmo ano, o fundador do Ashley Madison, Noel Biderman, deixou o cargo de CEO da então Avid Life Media, companhia-mãe da Ashley Madison, hoje reformulada sob o nome de Ruby Life Inc. Relatos de extorsão de usuários e processos milionários também chegaram às portas da empresa. Um acordo de US$ 11,2 milhões foi feito com as vítimas da brecha nos Estados Unidos e uma multa adicional de US$ 1,6 milhão foi paga à Comissão Federal do Comércio. Diante de todo esse contexto, parecia que o fim do Ashley Madison estava sepultado. Três anos depois, a companhia afirma estar recuperando sua audiência e vê no Brasil um dos seus mercados mais estratégicos.

Em visita a São Paulo nesta semana, Ruben Buell, CEO e CTO da Ashley Madison há cerca de um ano, fala sobre um novo momento da empresa e como arrumou a “casa” para assegurar o que o serviço desde o início prometeu, mas não conseguiu oferecer: discrição. “Depois do evento de 2015, a companhia precisou dar um passo para trás e olhar onde o nosso foco estava e onde deveríamos focar. O foco se tornou basicamente no produto e na tecnologia”, diz Buell em entrevista exclusiva ao IDG Now!. Segundo o executivo, agora a empresa contratou um novo e completo time de segurança, incluindo aí um Chefe em Privacidade, um Chief Information Security Officer (CISO), e novas camadas de segurança que cobrem desde a rede corporativa até o usuário na ponta. “Todo funcionário que entra, a primeira coisa que eles pensam quando chegam de manhã ao escritório e quando eles vão embora é a segurança”, garante Buell.

Quando sofreu o ataque há três anos, a segurança do Ashley Madison não era realmente das mais reforçadas. Em entrevista ao Motherboard, o grupo Impact Team disse que a segurança era fraca. “Ninguém estava olhando”, disseram. Hoje, uma das estratégias que a Ashley Madison contratou poderia soar até um tanto irônica dado o seu histórico, mas a companhia recorre à uma plataforma chamada Hacker One para reforçar as redundâncias da cibersegurança. O serviço reúne hackers contratados para encontrar bugs e falhas em sistemas, corrigi-los para depois serem recompensados, uma prática que tem sido cada vez mais comum no mundo corporativo.

Parte do trabalho de Buell é também entregar o tipo de funcionalidade que aplicativos de paquera e relacionamento entregam hoje em dia. Afinal, quando o Ashley Madison surgiu poucas eram as opções que as pessoas tinham para encontrar umas às outras no mundo amoroso online. Atualmente, a concorrência no setor conta com grandes players como o Tinder e até mesmo aplicativos de nicho. Segundo Buell, a empresa também adota tecnologias como machine learning para entregar matches mais próximos às expectativas de cada usuário, por mais subjetivo que isso seja. O modelo de negócios do Ashley Madison continua pago para homens – cobra-se créditos para enviar mensagens a potenciais affairs e é gratuito para mulheres.

Terminando affairs com bots

Colocar o Ashley Madison “nos eixos” também exigiu que a companhia lidasse com algumas práticas condenáveis. Isso porque, em 2016, o serviço admitiu que usava bots para convencer homens a pagarem pelo serviço. Em busca de affairs, homens, na verdade, acabavam se interessando por bots. Os robôs eram essencialmente a força de vendas do Ashley Madison. Aqueles que se inscrevessem para uma conta gratuita seriam imediatamente contatados por um bot que se apresentava como uma mulher interessada. Entretanto, para retribuir o interesse os homens teriam que comprar créditos do site. A repórter Annalee Newitz foi quem ajudou a expor o uso de bots pelo site e descobriu documentos internos mostrando que 80% das compras iniciais no site eram feitas por um usuário do sexo masculino tentando se comunicar com um robô. Na época, uma auditoria da Ernst & Young confirmou a prática e a Avid Life Media garantiu que os perfis falsos foram deletados no final de 2015. Na época, com 37 milhões de usuários, a proporção de usuários era de 5 homens para 1 mulher. Mais de 70 mil perfis de mulheres eram robôs. Nova consulta independente da EY mostrou que os bots não circulam mais entre o serviço.

A mesma auditoria da EY mostrou que mais de 5,6 milhões de novos registros foram acrescentados ao site em 2017 e que a proporção de usuários ativos pagos do sexo masculino para feminino foi de 1 para 1,13. Mas o Brasil vem acendendo o interesse da companhia em particular. Relatório da consultoria contratada identificou que de toda a base da Ashley Madison, 8,9 milhões de membros são residentes no Brasil. A conclusão? O Brasil atrai o maior número adúlteros fora da América do Norte. Há mais de 138 mil membros inscritos no Ashley Madison no Brasil mensalmente, conforme a Ernest & Young. Outro dado curioso diz que o País tem quase o dobro do número de mulheres em relação a homens no site – são 1,91 mulheres ativas para cada 1 homem ativo pagante. São Paulo, com mais de 1,6 milhão de membros, é a cidade com mais usuários no Ashley Madison, a frente de Nova York.

Para Buell, o crescimento da base de usuários do gênero feminino no Brasil indica o empoderamento da própria mulher. “Eu vejo através do Ashley Madison que as mulheres estão assumindo mais o controle e estão mais confiantes de si, de irem atrás do que elas querem. Nós vemos isso no número de pessoas que estão assinando o serviço e também vemos em seus perfis. Quando as mulheres entram no serviço, elas dizem exatamente o que elas querem, o tipo de relação, o tipo de homem que querem. É algo que você, dificilmente, vê em outros apps de relacionamento”, avalia o executivo.

O perfil de um típico usuário do Ashley Madison são pessoas na faixa dos 30 e 40 anos que, na visão de Buell, já acumularam experiências, estão estáveis e que, apesar de não quererem terminar seus casamentos, ainda não desistiram “da faísca”. Pesquisa interna identificou que 61% dos usuários traem, pois estão em busca de sexo, a maioria é casada e tem filhos.

“O típico usuário é aquela pessoa que já viveu a vida e descobriu que, nem sempre, a vida tem um final de conto de fadas. Talvez alguém que atingiu os 40 anos e tem toda a estabilidade e pensa ‘não quero desistir de ter sexo pelo resto da minha vida’ e decidem ter o controle disso”, diz Buell.

Precisamos falar sobre fidelidade

A popularidade de um site como o Ashley Madison também joga luz sobre a fragilidade de valores como casamento e a própria noção de monogamia. Se o site, cujo lema é “a vida é curta, tenha um caso” consegue se reerguer mesmo após um grave incidente de segurança, o que faz usuários mundo afora recorrerem a ele novamente? Para Buell, o Ashley Madison é também uma comunidade onde pessoas que passam por experiências semelhantes encontram alguém para conversar, terem um caso e não serem julgadas por isso.

“A gente fala que trabalha na maior plataforma de conselho matrimonial do mundo”, brinca Buell. Para o executivo, há naqueles que julgam o serviço um entendimento superficial e sobretudo, reside a hipocrisia. “Vemos que amor e sexo não são exatamente a mesma coisa. Uma das coisas que vemos na sociedade é que o divórcio tem sido socialmente aceitável. Então é perfeitamente aceitável separar uma família, você tem até pessoas que dão festas para comemorar um divórcio. Para um site que opera em 50 países e um fluxo de milhares de pessoas usando a plataforma todos os dias, você pode dizer que a monogamia não foi, necessariamente, construída para os seres humanos”, reflete.

Em sua visita ao Brasil, Buell fez uma espécie de turnê para conversar não só com a imprensa, mas também entender o mercado local. Dado o crescimento da plataforma por aqui, o executivo também espera entregar recursos que façam mais sentido para o mercado brasileiro, entender o perfil do usuário e até 2019 dobrar a base de pessoas que veem no Ashley Madison uma forma de encontrarem “um caso”.

“Infidelidade, traição, é algo que sempre aconteceu e sempre vai existir. O que a oferecemos são as melhores condições para isso acontecer. Então se a traição for existir, que isso acontece fora do trabalho, fora do seu círculo de amigos, não coloque a sua carreira e o seu casamento em risco. O melhor affair é aquele que não é descoberto e é para isso que a Ashley Madison existe”, conclui Buell.

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