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Diversidade é questão de negócios

CIOs de diferentes indústrias debatem liderança feminina e aconselham seus pares sobre o caminho que decidiram seguir

Publicado:
08/03/2020 às 15:49
Leitura
6 minutos

Maristella Iannuzzi, consultora da ONU Mulheres, é categórica ao afirmar que a diversidade é uma questão de negócios. Afinal, se organizações deixam de prestar atenção para conclusões empíricas de que um ambiente mais diverso tende a ser mais eficiente e lucrativo, há pesquisas que apontam exatamente nessa direção. Um estudo de 2018 da McKinsey & Company, feito com 1000 companhias, descobriu que as organizações que se destacavam por sua diversidade de gênero em times de liderança eram 21% mais propensas a conseguirem resultados de alta lucratividade. Um número ainda mais alto (33%) refletia a diversidade cultural e étnica na performance das empresas.

“Antes eu falava de empoderamento feminino como Direitos Humanos, mas hoje eu defendo como uma questão de sobrevivência dos negócios”, destacou Maristella durante evento recente organizado pela Softtek para debater a liderança feminina com CIOs e executivas. “Cerca de 70% da decisão no mercado mundial é feito por mulheres e se eu não tenho do outro lado da mesa, mulheres decidindo essa jornada de compra, seja no canal B2B, seja no B2C, o que acontece é que não se consegue vender e se não se vende, negócios morrem. Diversidade e inclusão é experiência do cliente e se você não tem um público diverso para desenhar essa jornada, você não conseguirá evoluir”, conclui Maristella que antes de assumir uma cadeira na ONU Mulheres vinha de uma carreira executiva em multinacionais, entre elas a Schneider Electric.

A ONU insere o empoderamento feminino também em um espectro mais amplo. Sustentar este ecossistema fortalecido por líderes mulheres não só aumenta a qualidade de vida delas, como a de homens, crianças e do desenvolvimento sustentável, diz a entidade. A ONU Mulheres e o Pacto Global estabeleceram os Princípios de Empoderamento das Mulheres, um conjunto de considerações que ajuda a comunidade empresarial a incorporar em seus negócios valores e práticas que visam à equidade de gênero.

No ano passado, a organização lançou em português uma ferramenta de análise que permite às empresas medir a igualdade de gênero em seus negócios. A Ferramenta de Análise de Lacunas dos Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEPs, na sigla em inglês) é uma gratuita e confidencial e pode ser utilizada pelas empresas uma vez por ano. Ela pode ser acessada por meio do link.

Há um caminho certo a trilhar?

No universo da tecnologia, a lacuna da representatividade pode ainda ser mais difícil de ser preenchida. Afinal, se as universidades em ciências e engenharia da computação tendem a formar mais homens, a conta da equidade se torna difícil de ser resolvida. Segundo levantamento da Statista feito a partir de relatórios apresentados pelas próprias companhias de tecnologia, a porcentagem de mulheres nessas empresas ainda não atingiu a equidade. Em papéis técnicos, diz a Statista, mulheres assumem uma em cada quatro vagas. Quando o assunto é levado para a liderança – números que refletem o mercado norte-americano – mulheres detêm 26,5% dos cargos executivos em posições de gerência do índice 500 S&P.

Durante o encontro, Eliane Santos, líder de TI da ABO, Luzia Sarno, CIO do Grupo Fleury, Nancy Abe, CIO do Grupo Notredame Intermédica, Jane Ricci, CIO do Carrefour e Anna Karina Crodelino, diretora de varejo da Softtek, compartilharam desafios e aprendizados de suas jornadas.

“Na minha turma da faculdade, tinha apenas quatro meninas. No MBA, quatro mulheres. Antigamente as mulheres iam mais para a tecnologia, mas existiu um certo momento que a propaganda começou a direcionar e dividir que o que eram eletrônicos iriam para meninos e outras coisas para meninas”, critica Jane Ricci, CIO do Carrefour.

Cada uma às suas próprias idiossincrasias, todas as executivas conquistaram posições de destaque em indústrias dominadas por homens. Na visão de Eliane Santos, líder de TI da ABO Latam, é preciso planejar a carreira e pensar com antecedência para alcançar o sucesso no universo corporativo. “Eu me dei bem, porque sempre estive à frente, sempre pensei à frente. Pense cinco anos à frente, planeje. Busque conhecimento para crescer, não importa o viés. Quem tiver mais conhecimento, é quem se destacará mais”, aconselha.

Já Luzia Sarno, CIO do Grupo Fleury, considera que as conquistas de sua carreira têm sua parcela na intuição, mas sobretudo, porque perseguiu com afinco aquilo que gostava. “Sempre tive uma intuição muito forte. Eu sou intuição pura. Faça o que você gosta. Eu não conseguiria estudar pensando apenas para cinco anos. Faça o que lhe faz feliz”, indica.

Anna Crodelino, da Softtek, estudou inicialmente Psicologia depois de migrar para o marketing e focar em vendas. A executiva entrou na Softtek como trainee há seis anos e destacou a importância de ter uma equipe e chefes que apoiam o desenvolvimento de líderes mulheres. “Busque o que você gosta e almeje os lugares que quer trabalhar”, resume.

Nancy Abe, CIO do Grupo Notredame Intermédica, lembra que tinha planejado toda a sua vida quando ainda tinha 15 anos. “Foi quando decidi quando eu ia me casar, me formar e me aposentar”, lembra em tom descontraído. Um ano sabático foi o que ela precisou para revisar a vida e perceber que um planejamento inflexível podia ser mais um peso do que uma solução. “Eu percebi que eu vinha seguindo a minha vida sempre de acordo com que eu planejava, mas eu não curtia o hoje. Você tem que curtir o hoje, o que você gosta”, avalia.

Jane, CIO do Carrefour, lembra com nostalgia que o sonho de garota era se tornar cientista da Nasa. Para ela, o diferencial para conquistar uma carreira de sucesso é o quão apaixonada você é por estudar. “Eu sempre gostei muito de estudar. E em tecnologia, você precisa gostar de estudar, estar preparada. Acho que é uma característica feminina que nos cobra a estar melhor preparadas. Vivemos em um mundo machista e sobrevivemos. Se você estuda, você sempre estará à frente”, afirma.

A executiva também aconselha profissionais a assumirem uma postura mais agressiva quando ela revisa a própria carreira. “Em alguns momentos eu deixei passar oportunidades, pois não queria me indispor, concorrer. Não me arrependo disso, mas acho que, de forma geral, as mulheres precisam se expor mais”, conclui.

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