Quem tem mais de 20 anos de carreira conhece a TI de cor. Este grupo de profissionais experientes já passou por todas as ondas de tecnologia e mercado. Só para citar as mais evidentes, sobreviveram à chegada da arquitetura cliente-servidor e o conseqüente donwsizing nas empresas, passaram pela abertura de mercado, o bug do ano 2000, a chegada dos ERPs e viram desde o começo o alvorecer da internet comercial. Não é pouco. Cada um desta geração tem histórias de como direcionar a carreira em um setor tão movimentado.
Quando o CIO da CSN, Marcos Pelaez, 32 anos de carreira, começou, em uma empresa de engenharia na área de construção pesada, a TI era na base do mainframe e do cartão perfurado. Parece coisa de filme antigo, mas era assim que funcionava boa parte das companhias que viam nos computadores gigantes uma forma de ganhar competitividade. Era uma outra época: bastava ter uma máquina destas funcionando para liderar o mercado.
Hoje, o quadro mudou. Não basta ter, é preciso saber tirar proveito. Antes, o conhecimento técnico imperava, quem sabia linhas de código tinha valor de diferencial de mercado para a companhia. Atualmente, o técnico tem seu lugar, mas criou-se uma demanda muito grande por quem sabe lidar com as destemperanças do relacionamento pessoal e do mercado. ?O que chamamos de TI hoje era apenas uma mecanização de processos braçais e burocráticos?, lembra Pelaez.
Atualmente, a tecnologia é um mundo de opções e sua influência vai muito além da própria empresa, alcançando clientes e parceiros. O técnico virou facilitador. O executivo resume essa transformação na forma como seu nome é dito nas salas de reunião da CSN. Do ?pede pro Pelaez consertar? passou para ?chama o Pelaez pra ajudar a fazer?. Quem foi criado nos ambientes fechados dos CPDs enxerga perfeitamente a diferença. ?Antes, a TI era suporte, agora precisa estar alinhada às metas de negócio das empresas?, comenta o diretor-corporativo de TI da Votorantim, Fabio Faria, 30 anos de carreira.
Isso faz o profissional adaptar-se de forma diferente. Mesmo quem está na equipe técnica desses executivos precisa ter algum conhecimento de negócio. Torna-se impossível não ser afetado por ondas econômicas ou administrativas. Também é improvável que a pessoa passe a vida fechada numa sala sem se relacionar com outros departamentos, parceiros ou clientes. ?O técnico precisa dar feedback mesmo que não peçam?, ensina Faria. Esse comportamento é diferente do que existia no aquário dos CPDs onde nem se sonhava em ser proativo ou flexível.
Transformações
O mundo mudou e a carreira também. ?Uma empresa que tem planos de internacionalização exige outros conhecimentos?, explica Faria. Não é por acaso que jargões como foco no cliente, gerar valor ao acionista e Ebitda (sigla em inglês para lucro da empresa descontado os juros, impostos, depreciação e amortização) têm tanto destaque quanto a última atualização da Microsoft, Oracle ou da SAP. ?A régua está cada vez mais alta para o profissional de TI?, diz o diretor-corporativo de TI da Votorantim Industrial.
Para o coordenador do curso de gestão de tecnologia da informação do IBTA, Mauro Negrete, empresas com o perfil citado, players internacionais e que usam a tecnologia como meio de sua estratégia dependerão cada vez mais de gente como o Fabio Faria ou o Marcos Pelaez. ?Quem for capaz de modelar um processo com a tecnologia, terá mais espaço no futuro.? Mas, para isso, alerta o professor, será preciso entender muito do negócio da empresa, do cliente e do mercado.
Exemplo dessa transformação que se avizinha é o CEO da Orizon, Luciano Corsini, 27 anos de experiência em TI. Ele começou na Embratel, antes da privatização, como técnico. Seu sucesso profissional como ?escovador de bits? foi o que se pode esperar de um perfil assim, com constantes promoções. Mas, depois que ficou fixo dentro de um cliente, a Shell, começou a se interessar pelo outro lado. Neste contato direto, se apaixonou pela rotina de um gestor, principalmente pelo desafio de cuidar de projetos. ?Aprendi a ter a visão do cliente sobre tecnologia, que é diferente do fornecedor?, explica. O conhecimento adquirido foi posto em prática quando foi trabalhar na EDS. Logo, o convidaram a entrar na área de negócios para gerenciar a conta de grandes clientes.
Depois de ser CIO da Visanet, ele foi convidado a ser o principal executivo da Orizon, empresa que nasceu da processadora de cartões para replicar esse modelo no setor de saúde. ?Antigamente eu só tinha poder ao assinar os cartões de ponto?, brinca. Hoje, cuida de uma empresa que usa a TI como estratégia de negócio. Algo que ele, se não tinha um plano de carreira definido, já almejava. Na sua primeira entrevista de emprego, a analista de recursos humanos perguntou até onde ele queria chegar na empresa. Ele disse: ?quero ser presidente?.
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