“In god we trust. All others must bring data*”. Todo interessado em Data Science ou Ciência de Dados já ouviu essa em alguma palestra, apresentação ou artigo no Medium, certo? Fato é que os cientistas de dados são profissionais cuja demanda crescerá significativamente nos próximos anos, conforme organizações de todos os setores aumentam a importância dos dados na obtenção de diferenciais competitivos e no processo de transformação digital. É uma das profissões do futuro, conforme elenca o relatório Jobs of Tomorrow (empregos do amanhã, em tradução livre), do Fórum Econômico Mundial.
O mercado de trabalho brasileiro não está alheio à tendência, e cresce a demanda por profissionais de data science capazes não só de coletar e armazenar dados de negócio, mas também analisá-los usando as melhores técnicas e ferramentas, de acordo com modelos pertinentes, na obtenção de insights. E, claro, transformar tudo isso em ação, influenciando a criação de produtos ou novas estratégias, por exemplo.
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No entanto, e aí mora o grande problema, esses especialistas são raros – e por isso mesmo caros. Segundo um relatório da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), falta mão de obra em tecnologia no país, com perspectiva de déficit de 290 mil novos profissionais até 2024, se nada for feito para acelerar o ritmo de formação.
Outro grande problema é a heterogeneidade dos profissionais atuando no Brasil. Segundo especialistas ouvidos pelo IT Trends, na ausência de uma carreira formalmente estabelecida para os cientistas de dados, as formações encontradas são as mais diversas possíveis, e a qualificação muitas vezes é insuficiente.
Para suprir essa lacuna, as instituições de ensino foram, ao longo dos anos, criando cursos de pós-graduação e MBA com foco em ciência de dados, voltados para profissionais de tecnologia – muito embora também atraiam em menor proporção graduados em outras áreas. Big Data, Machine Learning, Business Intelligence e outras tendências tecnológicas costumam estar nos nomes dessas especializações.
Mais recentemente, e ainda diante da necessidade de formar profissionais mais completos, algumas instituições de ensino começaram a apostar em currículos básicos específicos para cientistas de dados. Surgem assim os primeiros cursos de graduação e de tecnologia na área.

Um desses cursos, cuja primeira turma começou a assistir aulas este ano, é ofertado pela Universidade Anhembi Morumbi – muito embora esteja em processo de concepção há quase dois anos. Ao contrário dos cursos de MBA e pós-graduação, a abertura de um curso de ensino superior básico é lenta e demanda diversas aprovações por parte do Ministério da Educação.
“Todo mundo usa dispositivos móveis e internet, e à medida que as informações são geradas, muitos dados ficam pelo caminho. As empresas precisam de profissionais aptos a manipular e analisar esses dados para gerar informações úteis ao gestor que toma as decisões”, explica Augusto Mendes Gomes Júnior, coordenador do curso de graduação em Ciências de Dados da Anhembi Morumbi. “E não existia um curso de graduação que preparasse para esta profissão” complementa o coordenador.
A vantagem de uma graduação específica é formar um profissional capacitado tanto em computação como em estatística, segundo o professor, e não um cientista da computação, engenheiro ou estatístico que se aprofundou, seja em cursos formais ou simplesmente pela experiência prática. O que não significa que estes últimos não sejam um público-alvo.
“Alguns profissionais mais velhos, que já trabalham com isso, estão procurando formação. Mas a maior parte dos alunos está saindo do ensino médio agora”, responde Gomes Jr. “A maioria [dos alunos mais jovens] escolheu [o curso] porque o pai, o tio ou amigo indicou, eles foram ler e estudar a respeito e se identificaram.”
“Como o mercado tem muita demanda interna, as pessoas conseguem emprego, mas não entregam o que prometeram”
Outro curso de graduação de Ciências de Dados recém-chegado ao mercado brasileiro é ofertado pela Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (EMAp FGV), no Rio de Janeiro. Após um longo período de aprovações pelo MEC, o curso busca se diferenciar das graduações em matemática aplicada e estatística pelos quais a instituição é reconhecida, integrando técnicas modernas de computação.
“Criar um curso de graduação é difícil, então começamos com cursos livres e de pós. Desde 2016 a FGV tem um MBA em Big Data. Surgiu em 2017 a ideia de criar uma graduação que cubra a parte ferramental e dê um diploma para o aluno já se posicionar no mercado como tal, como cientista de dados, [carreira] que atualmente é autodenominada, e por isso se encontra absolutamente de tudo”, explica Eduardo Fonseca Mendes, professor da EMAp e do novo curso. “Como o mercado tem muita demanda interna, as pessoas conseguem emprego, mas não entregam o que prometeram”, conta Mendes.
A nova graduação da FGV também é procurada principalmente por egressos do ensino médio, uma vez que, acredita Mendes, profissionais já formados raramente procuram outra (longa) graduação e preferem cursos de pós. MBAs e cursos livres da instituição estão “sempre lotados”, diz. O perfil do aluno de Data Science é majoritariamente de interessados em matemática e computação, o que impulsiona, por parte das instituições, a oferta de disciplinas que supram lacunas de soft-skills características destes alunos.
“A maioria dos alunos de exatas são mais introspectivos. Tecnicamente muito bons, mas com dificuldades com as soft skills”, diz Gomes Júnior. “Na Anhembi Morumbi trabalhamos com projetos integrados que obrigam os alunos a trabalharem em grupo, discutindo ideias, desenvolvendo habilidades que o mercado necessita.”
A FGV, por sua vez, opta pela oferta de disciplinas que abordem questões éticas, legais e morais da manipulação de dados, trazendo “a sensibilidade do modelador ao problema”, explica Mendes. Além disso os alunos desenvolvem projetos acadêmicos e com empresas, além de estágios, o que aprimora naturalmente habilidades como comunicação, por exemplo, tema abordado pelo IT Trends neste e-book gratuito.
https://ittrends.com/e-book/soft-skills-por-que-as-habilidades-comportamentais-sao-tao-importantes-para-sua-carreira/
“Projetos da indústria exigem comunicação com gestores de outras áreas para entender métricas de avaliação, custos para empresa e qual modelo é melhor”, diz o professor da FGV. “Outra forma é através de relatórios escritos, que aqui na escola [especializada] em matemática estamos querendo incentivar cada vez mais. É um problema muito sério quando os alunos não conseguem expor ideias e fazer perguntas.”
A maior parte da carga horária dos cursos ofertados no mercado naturalmente se concentra sobre disciplinas de computação e estatística. Linguagens como Python e o R são temas comuns, assim como o trabalho com bancos de dados, estruturados ou não, e ferramentas de Big Data, Analytics e BI que ajudam a manipular imensas massas de informação. O enorme volume de dados precisa ser visualizado de forma compreensível para diferentes públicos. Esse é o cerne do trabalho do cientista de dados.
“Empresas tem uma demanda enorme de pessoas que vão criar banco de dados, mapear processos e definir dashboards com resultados úteis. Uma cultura forte de dados compreende processos mapeados e funcionários que sabem interpretar dados. O cientista de dados vai transformar tudo isso em valor para o negócio”, explica Mendes, que ressalta: “utilizar as bases de dados mais complexas exige conhecimento de modelagem e de negócio.”
Costumeiramente no Brasil recém-graduados não vão para o mercado de trabalho com conhecimento prático de negócios, o que tem sido remediado pelas instituições ao convidarem empresas a participarem do processo de formação dos alunos. Também estimulam o empreendedorismo, seja por meio de disciplinas específicas ou de trabalhos de conclusão que se preocupam menos com ABNT e mais com projetos que possam ser replicados no mundo real.
“Várias [empresas] têm interesse em propor estágios de verão com problemas para solucionar. É um ótimo negócio para elas, que a um custo baixo conseguem avaliar profissionais. Como um processo de seleção”, conta o professor da FGV.
Instituição: Universidade Anhembi Morumbi
Curso: Graduação em Ciência dos Dados
Onde: Vila Olímpia, São Paulo (SP)
Processo seletivo: semestral
Tempo para a formação: mínimo de 8 semestres
Valores: a partir de R$ 1.250 ao mês
Mais informações: https://portal.anhembi.br/graduacao/cursos/ciencia-dos-dados
Instituição: Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (EMAp FGV)
Curso: Graduação em Ciência dos Dados
Onde: Botafogo, Rio de Janeiro (RJ)
Processo seletivo: anual
Tempo para a formação: mínimo de 8 semestres
Valores: a partir de R$ 3.000 ao mês
Mais informações: https://vestibular.fgv.br/cursos/curso-de-ciencia-de-dados-rj
Instituição: Centro Universitário Brazcubas
Curso: Tecnologia em Ciências dos Dados
Onde: online ou semipresencial, com polos espalhados pelo Brasil
Processo seletivo: durante todo o ano
Tempo para a formação: mínimo de 4 semestres
Mais informações: https://brazcubas.br/curso/ciencias-de-dados/
Instituição: Universidade de Santa Cruz do Sul
Curso: Tecnologia em Ciência de Dados e Inteligência Artificial
Onde: Campi Santa Cruz do Sul
Processo seletivo: anual
Tempo para a formação: mínimo de 6 semestres
Mais informações: https://www.unisc.br/pt/cursos/todos-os-cursos/graduacao/graduacao-tecnologica/ciencia-dados-inteligencia-artificial
Instituição: Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp)
Curso: Bacharelado em Ciência de Dados
Onde: online, com polos de ensino espalhados pelo estado de SP
Processo seletivo: anual
Tempo para a formação: mínimo de 8 semestres
Valores: gratuito
Mais informações: https://univesp.br/cursos/bacharel-em-ciencia-de-dados
Instituição: FIAP
Curso: Banco de dados: data science, Big Data & BI (tecnólogo)
Onde: Aclimação, São Paulo (SP)
Processo seletivo: anual
Tempo para a formação: mínimo de 4 semestres
Valores: a partir de R$ 884 ao mês
Mais informações: https://www.fiap.com.br/graduacao/tecnologo/banco-de-dados/
Instituição: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
Curso: Bacharelado em Ciência de Dados e Inteligência Artificial
Onde: Perdizes, São Paulo (SP)
Processo seletivo: semestral
Tempo para a formação: mínimo de 7 semestres
Valores: a partir de R$ 1.820 ao mês
Mais informações: https://www.pucsp.br/graduacao/ciencia-de-dados-e-inteligencia-artificial
Instituição: Centro Universitário IESB
Curso: Graduação em Ciência de Dados e Inteligência Artificial
Onde: Campus Sul e Campus Norte (Brasília, DF) e Campus Ceilândia (Ceilândia, DF)
Processo seletivo: semestral
Tempo para a formação: mínimo de 8 semestres
Valores: a partir de R$ 517 ao mês
Mais informações: https://www.iesb.br/graduacao/curso/ciencia-de-dados-e-inteligencia-artificial
* ‘Em Deus nós acreditamos. Todos os outros precisam fornecer dados’. A frase tem seu primeiro registro em uma fala do professor de Patologia Edwin R. Fisher ao Congresso dos EUA, em 1978. De acordo com o próprio Fisher, na mesma ocasião, esse já era clichê entre a comunidade científica.