Quem conversa com Renato Roberto Cuoco, vice-presidente de operações e TI do Banco Itaú, sem conhecer seu passado, pode até achar, à primeira vista, o executivo não é um especialista de TI. Mas, certamente, não vacilará ao afirmar que sua trajetória está profundamente enraizada no setor bancário.
Isso porque Cuoco não fala – a não ser que seja muito questionado – sobre implementações faraônicas ou tecnologias revolucionárias, mas conta com entusiasmo sobre a convergência entre sua trajetória profissional e a evolução do setor financeiro no País. “Sou muito mais bancário do que especialista em TI”, admite.
Apesar da autodefinição, o fato é que Cuoco é um dos mais admirados líderes de TI do Brasil. E é pelos 47 anos dedicados ao Banco Itaú e à área de TI que ele recebe o reconhecimento especial do COMPUTERWORLD, por meio do prêmio de Excelência Profissional 2006.
Às vésperas de sua aposentadoria como executivo, o próprio Cuoco admite que foi exatamente esse engajamento com o negócio da empresa em que trabalha um dos maiores motivos para os bons resultados dos projetos que comandou.
E não são poucos os CIOs e profissionais de TI que admiram o trabalho desse paulistano do Brás e palmeirense de carteirinha. Cuoco colocou o Itaú em patamar invejável de desenvolvimento de TI, capaz de despertar o interesse de boa parte dos profissionais
de tecnologia.“Quando algum dos meus funcionários recebe uma proposta do Itaú, dificilmente consigo segurá-lo. É praticamente o sonho de todo profissional da área trabalhar lá”, conta um deles.
Fidelidade à toda prova
Desde que iniciou sua vida profissional – com 14 anos – Cuoco não passou por outra empresa além do Itaú, onde ingressou como aprendiz arquivista. “Logo após a morte do meu pai, eu precisava trabalhar e ingressei no Banco da América, que viria a ser comprado pelo Itaú – na época Banco Federal de Crédito – anos depois”, conta.Tempos mais tarde, com a entrada na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo no curso de engenharia mecânica, o então universitário passou a ter contato com a tecnologia, por meio de cursos realizados na própria instituição. Nesta etapa, foi transferido para o nascente departamento de processamento de dados do banco, incorporado em 1969.
O momento não simplesmente marcou a entrada de Cuoco na instituição,como também consolidou uma fase em que o Itaú dava os primeiros passos em direção àquela que considerava modernização tecnológica. Cinco anos antes, o banco havia adquirido seu primeiro computador IBM e apostava alto naquela estratégia que permitiria acelerar todo o desenvolvimento de sistemas de processamento.
Mas algo destoava entre o jovem executivo e seus demais colegas de faculdade: apesar de recém-formado, já contava com nada menos do que cinco anos de experiência, aspecto positivo o suficiente para assumir o cargo de gerência na área de processamento
de dados. E foi exatamente no início da década de 70 que Cuoco conheceu Carlos Eduardo Fonseca, o Karman, que ocupava a gerência de desenvolvimento de sistemas e que se tornou um grande parceiro – e admirador – ao longo da carreira. “Desenvolvemos uma amizade muito grande, o Renato tem características muito especiais, como dedicação total ao trabalho, grande preocupação com a evolução de seus funcionários e os objetivos sempre determinados”,conta Karman.A amizade também gerou uma competição saudável entre as duas áreas e conseqüentemente entre os dois colegas, algo que contribuiu para o espírito inovador de Cuoco.
O momento do Itaú realmente demandava inovação e trabalho duro, já que a instituição dava seqüência à sua política de aquisições de outros bancos. “As metas principais do gestor estavam em fazer com que o processamento de dados fosse peça fundamental para padronizar os procedimentos de fusão e criar um processo operacional único. Os maiores desafios estavam em digerir rapidamente os desencontros e implantar esses novos modelos de TI”, completa.
Jogadas do mestre
Assim como em boa parte das empresas que encontravam na TI um de seus principais pilares, um dos maiores testes de resistência por qual passou Renato Cuoco como gestor remete à época da reserva de mercado.
Com os investimentos restritos à tecnologia nacional e fabricantes muitas vezes desconhecidos, a cautela era redobrada.A adaptação da TI aos freqüentes planos econômicos e às frenéticas trocas de moedas também impôs desafios notáveis ao gestor,
que contabiliza o processo como um grande aprendizado.“Fomos obrigados a ter velocidade na TI. A necessidade é a mãe da criatividade”, comenta.
Mas como de tudo pode-se extrair alguma experiência positiva, o executivo aponta que a reserva de mercado favoreceu a formação de mão-de-obra de TI. E como bom professor que era – lecionou durante dez anos na Poli-USP – aproveitou a deixa para incrementar sua própria equipe. “Gosto muito de formar gente. Uma das minhas grandes realizações
é ver pessoas que trabalharam comigo em posições extremamente altas”.
João Antônio Dantas Bezerra Leite, atual diretor de Operação de Computadores e Telecomunicações do Itaú, é um exemplo desses profissionais que o executivo ajudou a formar. Ingressou no banco em 1983 ainda como estagiário e se espelhou nos exemplos e no trabalho de Cuoco para seguir carreira na área de TI. Hoje é um dos seis diretores subordinados diretamente ao CIO. “O Renato sempre foi um exemplo muito forte de ética, transparência e orientação adequada, ao mesmo tempo em que é muito pragmático. Ele deixa a gente voar na tecnologia, dá muita autonomia de trabalho, mas sabe muito bem a hora de nos fazer colocar os pés no chão”, enfatiza.
Segundo o executivo, o uso equilibrado da tecnologia e o foco nos negócios é outro atributo que rende elogios a Cuoco.“É um líder muito forte, que discute o porquê da mensagem sempre”.
Não por vontade própria, mas por regras do próprio Banco Itaú, em maio de 2007 Cuoco deverá deixar a vice-presidência sênior de Recursos Operacionais.“Depois de completados 62 anos, não é permitido ao profissional continuar exercendo nenhum cargo executivo”, explica.
A chegada deste momento causa saudosismo já em boa parte dos cerca de 22 mil funcionários ligados direta ou indiretamente à área de TI em todo o País, mas as apostas seguem firmes de que o caminho que Cuoco trilhou está bem pavimentado para ser
percorrido por seu sucessor, ainda não definido. Mas o afastamento não significa de maneira nenhuma que o executivo vá pendurar as chuteiras.
Permanecerá em um cargo de diretoria na Itaúsa – Investimentos Itaú S.A, para o qual foi eleito em abril deste ano. “Ainda não sei em qual função, mas a idéia é continuar contribuindo para o crescimento da única empresa em que trabalhei”, conclui. Ao que tudo indica, o executivo tem muito para fazer em prol do grupo. E o casamento de quase 50 anos de Cuoco com o Itaú está mais para a fase do ardor de uma lua-de-mel do que para a calmaria das bodas de ouro.