Executivo fala sobre perspectivas e visões sobre o festival de economia criativa
O SXSW é um festival onde saber se achar no mapa é questão de sobrevivência. Além do Centro de Convenções de Austin, as milhares de palestras, fóruns, festas e eventos se espalham por diversos hotéis, casas e estacionamentos na parte central da cidade.
Para se deslocar de um ponto a outro, pode-se ir a pé, de Uber, de carona pelo Lyft, por vans e shuttles, ou até nas curiosas caruagens hipsters puxadas por bicicletas, normalmente pilotadas por algum millenial barbudo, tatuado e sorridente (o que não é de estranhar pelo valor exorbitante que recebem a cada corrida naquela geringonça).
Mas como eu ia dizendo, localização é tudo no SXSW. O próprio nome do festival – South by Southwest – sugere uma direção, uma coordenada geográfica. Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo na cidade, meio atordoado pelo zigue-zague, sobe e desce, vai e vem sem parar, fiquei me perguntando se existiria um ponto de intersecção, um “pin” imaginário que ligasse todos aqueles lugares e para onde convergisse o conteúdo babilônico que vai da Ioga ao videogame, passando pelos simpáticos unicórnios.
O que seria o centro do X do SXSW? Lá pelo final do segundo dia do Interactive comecei a tentar conectar tudo que eu estava vendo para cristalizar uma convicção que se confirmaria até o fim da semana. No mapa da inovação, tudo que foi apresentado nessa região do Texas ou chega, ou volta, ou circula em torno do fator humano, formando um eixo tridimensional de comunicação. As diversas direções que segue esse eixo eu explico a seguir.
Vamos começar pela grande e larga avenida de informações que hoje parte das pessoas em direção às marcas, empresas e seus produtos. Num dos primeiros painéis dos quais participei, com presença do vice-presidente da L’oreal, chamou atenção como o time de criação da Louis Vuitton lança estampas e padronagens desenvolvidas a partir da comparação de fotos dos vestidos, bolsas e acessórios que as mulheres usam nas ruas, pelo rastreamento de imagens nas redes sociais como o Pinterest, por exemplo.
Pode-se dizer que no mundo da moda, antes as marcas faziam outdoors para influenciar o seu público e agora as pessoas é que servem de outdoor para a tomada de decisão das marcas. No mesmo contexto, algumas grandes redes de varejo chegam a identificar pelas suas câmeras de segurança o comportamento médio de seus clientes e passam a orientar todas as suas ações com base nesses insights a fim de melhorar a experiência de compra nas suas lojas.
Existe uma questão ética e legal nesse capítulo do big data, que diz respeito à segurança e privacidade das informações pessoais. Mas como esse controle é difícil de executar, essa discussão acaba ficando em segundo plano. Numa dimensão mais high-tec, os devices do Google, Amazon e Sony acionados por comando de voz e leitura facial estão evoluindo para identificar pelo tom da fala qual o estado emocional da pessoa e responder de acordo com esse estímulo. Se você chegou estressado do trabalho e pede uma música, a ferramenta já vai selecionar uma playlist para te acalmar ou levantar o astral. É a inteligência artificial a serviço da satisfação pessoal.
Já no caminho contrário deste eixo imaginário, que vai das marcas, empresas ou entidades em direção aos indivíduos, o avanço também impressiona. A palavra de ordem nesse caminho é empoderamento. Esqueça o termo surrado, mas concentre-se no que vem com ele. A tecnologia das blockchains, por exemplo, brilhantemente apresentada por Joe Lubin, um dos pais do Ethereum.
Mais do que viabilizar as bitcoins, esses blocos de dados interligados entre si permitirão a construção de grandes livros contábeis, com acesso livre a qualquer um na internet, onde vai ser possível consultar com transparência as mais diversas operações financeiras, criptografadas com códigos muito difíceis de serem quebrados. Isso pode no futuro desestimular inclusive a corrupção e desvio de dinheiro privado ou público– se você lembrou da Petrobrás, bingo, entendeu do que eu estou falando.
A vida dessas empresas e instituições passaria a ser, literalmente, um livro aberto. Ainda no tema do empoderamento – ou se preferir, democratização da informação – participei de outro fórum onde discutiu-se o acesso aos dados médicos e ao prontuário por parte dos pacientes.
Já existem inclusive no Brasil diversos apps e ferramentas que permitem às pessoas controlarem seu histórico médico e regularem seus hábitos de vida com base nesses dados. Isso fora a liberdade de poder levar seu prontuário para o hospital ou médico que quiser, sem depender da burocracia recorrente na área da saúde.
O que se questiona neste caso é o quão preparado está o cidadão médio para ter acesso a essas informações e se ele realmente vai saber o que fazer com elas. Aliás, como lembrou o CEO do Evernote, Chris O’Neil, cada vez é mais difícil administrar tanta informação recebida, e essa é justamente a missão da sua empresa: preparar as novas gerações para saberem organizar melhor a vida, filtrar o que é realmente importante e hierarquizar as tarefas.
Uma das palestras mais divertidas e bem montadas do SXSW também passa por aí.
Alex Chung, CEO do Giphy, mostrou que o sucesso do seu sistema de busca (sim, é assim que ele define o core da empresa) se deve ao fato de que as mensagens curtas e rápidas como os GIFS ganham cada vez mais espaço no loteamento do conteúdo online, onde a grande maioria dos usuários não consegue dedicar mais de 10 segundos de atenção a nenhuma mensagem.
Além da estrada que vai e da que volta levando ou trazendo informação para a gente, existe ainda uma outra, transversal, que é a da inovação que conecta diversas pessoas em grupos ou comunidades.
Está aí a razão de ser do Facebook, como lembrou Andrew Keller, Global Creative Director do gigante azul. Tudo que a plataforma faz tem o propósito de engajar, reunir esses grupos e fortalecer a comunicação entre seus membros.
Seja a comunidade dos paraquedistas, das feministas, dos skatistas, de qualquer outro “ista“ ou mesmo da sua família. Mas Austin mostrou também que o poder das ideias que conectam pessoas vai muito além do ambiente online. Pode estar simplesmente no ambiente de trabalho.
Basta ver o sucesso do We Work, o coworking vanguardista que já tem uma população de centenas de milhares de adeptos em suas diversas sedes e transformou seu fundador Miguel McKelvey em bilionário apenas criando uma cultura que inspira as pessoas a chegarem felizes ao escritório na segunda-feira de manhã. Uma espécie de tecnologia do amor, que vem criando uma legião de trabalhadores motivados no mundo todo.
Entre todos esses caminhos que levam ao futuro, existem visões pessimistas, incluindo a de que a A.I. vai criar o caos entre os seres humanos, como sugere o roteiro do seriado West World, um estrondoso sucesso em todos os eventos que fez por aqui. Mas eu ainda prefiro a visão otimista, de que a tecnologia pode dar mais espaço para as pessoas despertarem seus talentos, se desenvolverem como seres humanos e aproveitarem a vida com mais sabedoria.
*Alexandre Silveira é diretor de Criação da Be Media e da Bronx, ambas com sede em Curitiba