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Modelos de produção ‘just-in-time’ precisarão ser revistos em ambiente de degradação da globalização

Pandemia da covid-19 força revisão das cadeias produtivas e pressiona transformação digital

Publicado:
23/06/2020 às 10:00
Leitura
6 minutos

O matemático e prêmio Nobel John Forbes Nash Jr., que inspirou o filme “Uma mente brilhante”, de 2001, expandiu os conceitos da “teoria dos jogos”, um ramo da matemática aplicada que estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar seu desempenho, desenvolvendo o chamado “equilíbrio de Nash” para uma dinâmica envolvendo dois ou mais jogadores onde nenhum jogador tem a ganhar mudando sua estratégia unilateralmente.

Utilizando estes princípios no ambiente de negócios os modelos matemáticos procuram estabelecer as variáveis resultantes das mudanças nas estratégias entre os jogadores (organizações) considerando que os custos e benefícios de cada opção não são fixos, mas variáveis em função das escolhas estratégicas dos demais jogadores.

Nos anos 50, após a 2ª Guerra Mundial a montadora japonesa Toyota criou um modelo de produção que buscava combinar grande flexibilidade para fabricar pequenos lotes com níveis de qualidade comparáveis aos concorrentes norte-americanos, produzindo apenas o que o mercado solicitava tendo como objetivo principal adquirir uma posição competitiva, o que ficou conhecido como “just-in-time”.

Nos anos seguintes praticamente todas as demais montadoras bem como indústrias dos mais diversos setores, adotaram este modelo, adaptando as necessidades específicas do seu segmento de atuação. O avanço dos processos de digitalização e velocidade de conectividade entre as redes de dados, permitiu que este modelo explorasse as melhores opções de máxima eficiência e mínimos custos criando cadeias de produção envolvendo, para as grandes multinacionais, centenas de fornecedores nas mais diversas geografias.

Para aquelas organizações que estavam nas fases iniciais dos seus modelos de transformação digital no pré-Covid, havia a natural revisão das cadeias produtivas mantendo o equilíbrio de Nash, onde todas as partes envolvidas tinham acordos de cooperação satisfatórios e condições de mercado envolvendo as variáveis principais de qualidade, tempo, preços e disponibilidade. As questões geográficas e eventuais tensões geopolíticas eram consideradas com reduzida prioridade de vir eventualmente oferecer riscos a efetividade de todas as partes (jogadores) envolvidas.

Interrupções abruptas foram geradas nas cadeias produtivas durante os períodos de lock-down onde ficaram evidentes as vulnerabilidades do just-in-time, sob o impacto de um evento totalmente inédito onde decisões tinham de ser tomadas imediatamente. A indisponibilidade de um componente em particular, seja por alta demanda ou falta dos insumos necessários para produzi-lo, comprometendo todo o produto ficou evidente. Subitamente surgiram falhas nas extensões das cadeias produtivas dos fornecedores dos fornecedores, comprometendo os benéficos deste conceito produtivo. Dentre os vários questionamentos com que agora os CEOs se defrontam, questiona-se se ainda seria viável manter o “just-in-time”. Soma-se a este cenário de muitas dúvidas, visualizando a reabertura dos negócios e as tensões geopolíticas que emergiram durante a crise. Os imensos prejuízos estimados durante os meses improdutivos que ficarão tangíveis em números ao longo dos anúncios dos resultados das empresas e países deste 2º. trimestre, irão expor quais setores foram mais duramente impactados bem como os países.

Os governos estão sendo obrigados a encontrar rapidamente soluções financeiras para salvar muitas companhias de setores considerados como críticos, como o de aviação por exemplo, onde a Alemanha e União Europeia anunciaram em 25 de Maio um acordo preliminar de aporte de 9 bilhões de euros em troca de 20% da empresa, que poderá chegar a 25%. Em 25 de abril, a Boeing desistiu do aporte de U$ 4,2 bilhões para a formação de uma joint-venture com a brasileira Embraer e solicitou um aporte do governo americano de US$ 60 bilhões para atravessar a crise.

O governo brasileiro também está próximo da execução um modelo similar a Alemanha através de recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) para as quatro maiores companhias do setor aéreo. A provável estatização de empresas de outros segmentos duramente impactados levará naturalmente a maior concentração dos empregos nos países de origem destas empresas. Estas operações que requerem expressivos créditos utilizando recursos públicos irão certamente gerar o grande endividamento de muitos dos países mais afetados, podendo chegar a 100% do PIB ou até em alguns casos caracterizar uma insolvência técnica.

A geração de empregos nos países sede irá diretamente afetar o “equilíbrio de Nash” já que as opções por produção nacionalizada irão descontruir as cadeias produtivas anteriores à crise gerando desemprego nos demais países participantes das cadeias produtivas do pré-Covid. Será incentivada a produção de componentes nos países origem seja para realocar a mão-de-obra que perdeu suas posições e para garantir a disponibilidade de todos os componentes mesmo que em condições de preços e qualidade superiores. Em paralelo a este movimento os consumidores estarão mais interessados em verificar a procedência dos materiais e insumos dos produtos que venham a adquirir.

Como os hábitos de consumo e preferências passarão por mudanças que ainda não são possíveis de estimar, uma das grandes questões para os gestores tomarem suas decisões e poderem ajustar rapidamente seus modelos de produção mais localizada será verificar o grau de satisfação dos consumidores e o apetite para pagar preços talvez mais elevados por um produto final com, talvez, índices de qualidade inferiores porém com menores riscos de indisponibilidade.

Surge o conceito de “nextshoring” para caracterizar o reencontro da relação preços e benefícios entre os índices de produção local e internacional. A combinação destes diversos fatores irá exponencializar não apenas os processos de transformação digital, mas principalmente a criticalidade de prover acessos adequados aos usuários participantes e velocidade da integração de vários sistemas e aplicações para responder as urgentes demandas das áreas de negócios.

A flutuação dos novos comportamentos e preferências dos consumidores somente será possível responder em tempo hábil na dimensão tecnológica através de algoritmos de AI e ML para automatizar a gestão das identidades digitais e permitir granularidade correta de interações dos usuários internos e os múltiplos atores participantes das cadeias produtivas envolvidas.

Associado a estes rápidos movimentos durante os processos de reorganização das operações, haverá uma ainda mais expressiva migração para ambientes cloud e mesmo multi-tenant nas quais a governança das milhares de identidades digitais participantes será um fator crítico de sucesso competitivo na busca da eficiência e reposicionamento de mercado.

*Leonardo Scudere é Diretor Regional, Latin America na SailPoint Technologies

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da CIO Brasil

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