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Na indústria, virada para a nuvem vem com sacrifício do lucro

Publicado:
24/02/2015 às 11:17
Leitura
9 minutos
Na indústria
Cloud computing chegou com a promessa de revolucionar o mercado. O modelo acena com a possibilidade de acelerar projetos, aumentar a disponibilidade e reduzir os custos. Benefícios que começam a ser observados agora, depois de um período de maturação. Segundo a consultoria IDC, 2014 foi pautado pelo conhecimento do modelo, tanto para a indústria quanto para o CIO, e neste ano veremos casos reais de nuvem. 

Antes de chegar nesse estágio, no entanto, as fabricantes tradicionais de TI tiveram uma longa jornada para adaptar seus modelos de negócios do on premise para cloud. A transformação, embora positiva, tem impactado a rentabilidade de grande parte das companhias. Elas deverão obter retorno financeiro do modelo somente no médio prazo.

Os recentes resultados financeiros de companhias como IBM e SAP reforçam a previsão. A fabricante alemã de software reduziu sua expectativa de margem de lucro em 35% para 2017 e, com isso projeta lucro de operação entre 6,3 bilhões de euros e 7 bilhões de euros. A queda se justifica pelo impulso para a entrega de software baseado em nuvem, modelo que deve impactar suas margens de lucro.

A IBM, que tem registado queda nas receitas 11 trimestres consecutivos, está de olho na nuvem para mudar o quadro e aposta em aquisições na área. A estratégia chega para retomar o crescimento e os resultados começam a aparecer. No último trimestre de 2014, a Big Blue registrou receita total global em cloud de US$ 7 bilhões, crescimento de 60% em comparação com igual período do ano anterior.

“Quando se vai para a nuvem, especialmente na parte de infraestrutura, tem-se o compartilhamento de recursos. Assim, a contratação tem um custo menor. Em um primeiro momento, as fabricantes têm redução na receita”, explica Pietro Delai, gerente de Pesquisa e Consultoria Enterprise da IDC. Ele, no entanto, diz que a indústria já caminha para reverter o cenário e em breve vai conquistar os mesmos patamares de receita de antes.

Cristina Palmaka, presidente da SAP Brasil, indica que, de fato, não é surpresa o comportamento do modelo de negócios em nuvem. Mas a SAP vem, nos últimos cinco anos, preparando-se e fazendo a virada para cloud computing. A movimentação está em linha com a necessidade dos clientes e é um caminho sem volta, pontua.

“Saímos de uma empresa sem presença em cloud para conquistar forte liderança no modelo”, diz, completando que a fabricante está apenas começando. “Fizemos aquisições com a Ariba e já temos 1,6 milhão de empresas conectadas, o dobro da Amazon e da IBM”, enumera. A empresa não divulga dados locais, mas o último balanço divulgado em fevereiro aponta que a receita global com cloud aumentou 72% ano a ano e a receita total do ano com cloud superou 1,7 bilhão de euros.

A executiva garante que a empresa não teve impacto negativo no Brasil em razão do modelo. Ao contrário, foi possível adicionar mais ofertas ao portfólio, o que dá mais opções para o cliente. “Deixamos de ser uma organização focada apenas em ERP”, lembra. “Estamos em um momento de transformação acelerado. Abrimos um leque de ofertas e o mercado está aberto para isso”, completa.  

Ela relata que o ingresso no universo de cloud também possibilitou a formação de equipes especializadas no tema. Hoje, a equipe SAP conhece com profundidade o assunto e conta com pessoas tanto focadas em soluções como em segmentos de mercado. 

Para 2015, a executiva se diz otimista com a adoção de tecnologias e cloud. “Entendemos o momento econômico, mas nossas soluções contam com benefícios como aumentar receita e reduzir custos. São dois caminhos que as empresas vão continuar perseguindo e essa é nossa missão”, indica.

A Oracle anunciou recentemente diversas soluções para tornar-se a fabricante ‘número um’ em cloud computing em todo o mundo e está orientando toda a sua estratégia para esse universo. Juan Carlos Gutierrez, vice-presidente de Consultoria da Oracle para América Latina, explica que a fabricante não sentiu o impacto financeiro da mudança, por trabalhar desde o final dos anos 90 com o modelo, ainda que ele não tivesse sido batizado de ‘cloud’.

“Para nós, uma grande mudança aconteceu na área de serviços, considerando que temos tempo de serviço mais curto, menos desenvolvimento e trabalho mais remoto do que no local”, diz. A adaptação para esse universo também impactou os colaboradores da Oracle que atuam com a nuvem. “Temos 30 mil consultores especializados no tema em todo o mundo. Todos com certificação”, observa Gutierrez.

A nuvem tem trazido bons resultados, segundo ele. De acordo com o último balanço financeiro divulgado em dezembro de 2014, referente ao segundo trimestre do ano fiscal de 2015, as receitas de software e computação em nuvem tiveram aumento de 5%, alcançando US$ 7,3 bilhões. A receita de software como serviço (SaaS), plataforma como serviço (PaaS) e infraestrutura como serviço (IaaS) em nuvem saltaram 45%, totalizando US$ 516 milhões. 

Para a Oracle, o Brasil, aponta o executivo, tem liderado a adoção na América Latina e a expectativa é de crescimento rápido, no curto prazo. A grande demanda é por soluções de customer experience, Human Capital Management (HCM), analytics e ERP em diversos setores, mas especialmente telecom, financeiro e varejo.

De dentro para fora
Na EMC, a virada para a nuvem aconteceu primeiro dentro da empresa, extrapolou seus muros e chegou até os clientes. O processo foi acelerado com a compra da VMWare, em 2003, braço de cloud pública da EMC. “94% da nossa plataforma interna é hoje virtualizada. Os outros 6% não serão virtualizados, por serem aplicações que serão descontinuadas”, detalha Welson Barbosa, diretor de cloud da EMC para a América Latina. 

Em razão da preparação, diz o executivo, não houve impacto nas receitas, garante. No último trimestre de 2014, a EMC registrou receita recorde de US$ 7 bilhões, 5% a mais do que o mesmo período do ano anterior. 

Segundo a companhia, no último trimestre e no ano de 2014, a VMware continuou sua trajetória de crescimento rápido nos negócios da EMC, com receita 16% maior em cada um dos períodos correspondentes no ano anterior, já que os clientes continuam a investir em data centers definidos por software, soluções de nuvem híbrida e End-User Computing (EUC, computação do usuário final).

Com a estratégia para 2015 calçada na nuvem híbrida, Barbosa conta que toda a empresa está com discurso afiado para fisgar clientes. “Em 2014, passamos por um período de educação. Os clientes estavam curiosos, queriam saber como aproveitar essa onda, houve um momento forte de investimento. Agora, é hora de colher os frutos, vejo muito forte a adoção desse mercado”, acredita.

Mudança também para o canal
Toda mudança tecnológica acaba impactando, de alguma forma, a cadeia de valor da indústria. Assim como os fabricantes, as integradoras de TI que não nasceram no universo de cloud também tiveram de adaptar seus modelos de negócios para ingressar na cloud. 

Victor Gureghian, diretor de parcerias e de negócios no segmento de PMEs da Microsoft Brasil, lembra que a nuvem exige uma venda mais consultiva, tanto por parte da fabricante quanto do canal. “Esse trabalho diferenciado tem um custo mais alto”, afirma, dizendo, no entanto, que isso não mexeu com as receitas da empresa no Brasil.

O executivo conta que a Microsoft fez um trabalho muito forte com o canal desde o início das ofertas de nuvem, tanto que o número de parceiros com competência de nuvem mais do que duplicou no ano passado. “Investimos em certificações e preparamos os parceiros para o novo universo”, diz.

Ainda que o cenário nacional seja de cautela em 2015, Gureghian espera manter o crescimento de três dígitos nos negócios de nuvem, especialmente porque agora os CIOs estão sendo pressionados para cortar custos e buscar eficiência, benefícios alinhados à promessa da nuvem. Para se ter ideia, a receita de nuvem da Microsoft com clientes corporativos cresceu 114% em todo o mundo no segundo trimestre fiscal, encerrado em dezembro de 2014. Esse avanço foi puxado pelas ofertas do Office 365, Azure e Dynamics CRM Online, de acordo com a companhia

Cristina, da SAP, afirma que a fabricante alemã também preocupou-se em munir o canal de novas fontes de receita para cloud, eliminando a possibilidade de impacto negativo nos resultados financeiros. “Nossa expectativa é de que cada vez mais novos parceiros de nuvem e/ou os tradicionais comecem a mostrar soluções no modelo, porque o cenário abre um leque de oportunidades”, observa.

Na Sonda IT, parceiro SAP e Microsoft, desde 2012 soluções de cloud passaram a fazer do portfólio. “Desde o começo não tínhamos a visão de que nosso lucro cairia. A migração para on premise pode mudar a fonte da receita, mas ela continua existindo”, pontua Luiz Henrique Caloi, diretor de Data Center & Cloud Computing da Sonda.

A adaptação necessária por parte da integradora chilena foi ampliar a oferta de nuvem. “Antes, a Sonda oferecia data center somente dentro de sua infraestrutura. Aumentamos as possibilidades para o cliente”, conta.

Outro exemplo do aumento do portfólio está no lançamento do Enterprise Content Management (EMC) na nuvem para gestão de documentos por meio da cloud. “Seu diferencial é ter tudo integrado: o produto, a infraestrutura e o suporte”, diz Waldir Rodrigues Júnior, diretor de Outsourcing & Integration da Sonda.

O head of Global Solutions Center da Stefanini, Breno Barros, lembra que a adaptação da integradora nacional de TI foi baseada na capacitação do time. Da mesma forma, a criação de soluções sob demanda para rodar no universo de cloud. “Desenvolvemos alguns serviços com base na nuvem, um deles o teste de mainframe, que reduz o custo de projetos”, exemplifica.

Barros relata que, hoje, a Stefanini conta com 2,4 mil pessoas no Brasil voltadas para a prática de cloud e 8 mil em escala global, todas certificadas e capacitadas em cloud. “Hoje, nossa primeira opção quando apresentamos uma oferta é sempre a nuvem.”

Segundo ele, a empresa ainda não medir o resultado de cloud nos negócios, mas o modelo, diz, trouxe diferencial competitivo. “Nossa expectativa é de que em 2015 consigamos mensurar. Vamos avaliar se houve melhoria na produtividade e se ele se traduziu em ganho de receita”, assinala.
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