ITF365: Quando você pensa em todo esse ecossistema aberto e a maneira com a qual a comunidade de desenvolvedores de softwares abertos, como o Linux, está crescendo… você espera que vai chegar um momento quando todas ou muitas das empresas de TI tradicional terão que abrir seus códigos também?
Whitehurst: Não, na verdade não. E sei que alguns dos meus colegas que defendem o open source irão querer me matar por dizer isso (risos), mas open innovation funciona onde há uma comunidade de pessoas que têm duas coisas. Primeiro, muitas pessoas, ou seja, colaboração em massa. E segundo, diferentes perspectivas para resolver um mesmo problema. Particularmente, melhor quando os usuários estão envolvidos nisso junto com os fornecedores. Então, tomando algo como o OpenStack. Quando a maioria dos softwares de infraestrutura começam a funcionar dessa maneira, pegue como exemplo uma solução para verticais da indústria, para serviços financeiros ou o setor de óleo e gás… Não estou certo que você conseguirá criar uma comunidade grande o suficiente para fazer uma pesquisa relevante no algoritmo construído para esses clientes, para algo muito específico. Talvez isso acontecerá quando houver uma comunidade suficiente de usuários em torno disso.
Ou seja, quando mais você chega a uma aplicação muito específica, o poder da colaboração cai. E então o valor do investimento em propriedade intelectual aumenta, claro.
Vamos continuar a ver muitos softwares proprietários. Mas cada vez menos no nível de infraestrutura. [Os sistemas proprietários] irão se mover mais e mais para verticais especializados, analytics. E claro, haverá ainda um longo tempo para que se crie um software aberto de ERP, que irá desafiar a SAP, por exemplo, e outros grandes nesse mercado, mesmo que todas usem. Não há muito valor em fazer isso, não há mil maneiras de se calcular impostos e contas… O maior desafio para esse tipo de companhias de softwares proprietários são softwares como serviço. E eu não acho que a SAP tem que se preocupar com open source e ERPs (risos).
ITF 365: E mais próximo aos usuários, companhias como o Facebook e o Google abraçam cada vez mais a nuvem e em iniciativas open source. Como você vê as implicações disso para a Red Hat?
Whitehurst: na verdade isso é muito bom, quanto mais eles se moverem para isso, melhor. Por exemplo, um iPhone não é nada “aberto”, mas muitos dos serviços de back end dessas aplicações na nuvem quase com certeza rodam em Linux e são open source. O desafio aí é o compartilhamento “pago” e “não pago”. E os thin mobile clients e back ends crescendo é fenomenal para nós.
ITF365: Cibersegurança ainda é um desafio para a comunidade open source?
Whitehurst: Na verdade, eu diria que é o oposto disso. Uma analogia: você se sente mais segura andando numa rua deserta, escura, e sozinha; ou em algum lugar iluminado com várias pessoas passando pelo mesmo caminho ocupado? E o fato de o código ser aberto, bom, existem mais pessoas boas do que pessoas más no mundo – incluindo programadores (risos). Quando há muitas pessoas procurando por brechas de segurança é, na verdade, melhor. Se você olhar para a maioria das aplicações militares, elas rodam em Linux… não em Windows ou outros sistemas proprietários. E são geralmente consideradas mais seguras. E bem ou mal, sei que não é um bom nome a se usar agora, mas o regime de segurança que há no Red Hat Linux foi escrito pela NSA (Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos), e ele passa em todos os requerimentos de segurança de alto nível nos quais eles rodam seus sistemas mais importantes.
E, aliás, temos uma versão especial russa, na qual literalmente o governo russo olha para todas as linhas de código fonte que compilamos nos computadores russos. É o mesmo software, mas eles se preocupam se alguém vai colocar algo no código… mas, outra vez: você sabe o que está no código do Windows?
ITF365: Red Hat é a primeira empresa de software open source a ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão de receita [no último ano fiscal, encerrado em fevereiro, a receita total foi de US$ 1,53 bilhão]. Vocês colocaram o caos da colaboração em ordem. Como é alcançar alto nível nos negócios com uma filosofia tão aberta?
Whitehurst: Sou totalmente passional sobre isso. Em tantas áreas de negócio a inovação, quando acontece no ambiente aberto, é muito poderosa… Mas não necessariamente ela vai acontecer se não construirmos um modelo de negócio sobre o qual haverá lucro. Em educação, em mídia, na indústria farmacêutica… eu tenho falado com CEOs de empresas farmacêuticas. Se elas abrissem mais as pesquisas que elas fazem, e as compartilhassem, o quão longe poderíamos chegar para resolver todos os tipos de problemas e o quanto melhor o sistema de saúde poderia ser? É lógico que elas não vão fazer isso porque elas não acham lucrativo. Então, para a Red Hat, demonstrar um modelo de negócio lucrativo em cima da inovação aberta é importante não apenas para nossos acionistas, mas também para demonstrar que esses modelos podem acontecer em outros setores. Repito, em educação, em mídia, na saúde… Em tantas áreas da economia que são baseadas em informação.
Eu falo tanto da nossa história e algumas pessoas não entendem, mesmo em companhias open source. O poder do modelo da Red Hat é o que reconhecemos que não é possível vender algo que é gratuito. (risos) O que realmente fazemos é construir valor no topo das coisas gratuitas. Em tantos negócios, você pensa sobre o produto claramente. Mas quando falamos em software, as pessoas pensam que software são bits, números. Só que na verdade não é isso. O modelo de inovação não cria as funcionalidades de software, e isso é gratuito. O que a Red Hat faz é: “ok, nós absorvemos as funcionalidades gratuitas, mas para empresas o valor que elas querem é colocar isso na produção e confiar nisso por anos”. E você tem que se lembrar que no universo do Linux e em todos os nossos produtos, a comunidade vai desenvolver uma atualização de segurança, ou um bug. E isso vai acontecer para a última versão, todas as versões. Mas para um ERP da SAP rodando num kernel de dois anos atrás, por exemplo, quem vai corrigir isso?
E até empresas open source com quem eu converso não enxergam isso. Elas mostram uma versão aberta e vendem um suporte para ela. Isso é um modelo completamente diferente do nosso.
Quebrar o tradicional modelo de negócio e como tirar vantagem do poder de inovação mas ter certeza que vamos criar algo além disso. É isso que nos faz tão lucrativos. E muitas vezes as pessoas me perguntam como eu equilibro a necessidade de se fazer dinheiro e ter que ser aberto. Só que isso não é uma questão de equilíbrio para nós, é um modelo de inovação que acontece de maneira aberta… e o maior número de pessoas possível quer usar o que há de mais inovador. Acontece que o modelo de inovação e o de consumo são diferentes. Reconhecer isso é muito, muito importante para a sociedade como um todo, não só para o software. Não dá para vender inovação e pensar que é ali que vamos ganhar dinheiro, não é isso.
ITF365: Por fim, o que você tem a falar da estratégia da América Latina?
Whitehurst: É a região onde estamos investindo muito. Com capacitação, contratação de talentos – ao redor dessa mesa, você vê que nossas lideranças têm poucos cabelos (risos), ou seja, estão na indústria de TI há muito tempo. O custo de operações na América Latina é o mais alto, mas não por impostos ou coisas assim. É porque realmente estamos investindo, abrindo escritórios, conjunto de condições do mercado que era bem inicial e está crescendo, bem como condições macroeconômicas para isso. Seguramente eu digo que iremos dobrar as operações nos próximos cinco anos. Quem sabe até triplicar.
*A jornalista viajou a São Francisco a convite da Red Hat