O presidente da Microsoft Satya Nadella tem sido alvo de
críticas desde que desencorajou mulheres a não pedirem aumentos a seus chefes,
durante palestra em conferência que celebrava justamente as mulheres no mundo
da computação, realizada na quinta-feira (10) em Phoenix (EUA).
Durante o Grace Hopper Celebration of Women in Computing, o
CEO foi questionado sobre se aconselharia a mulheres que querem subir na
carreira mas que se sentem desconfortáveis em pedir aumento. Ele respondeu: “Não
se trata de pedir aumento, e sim de ter fé que o sistema irá te dar a devida
ascensão à medida em que você crescer”. Em seguida, adicionou “acho que é um
dos superpoderes adicionais que, francamente, mulheres que não pedem por
aumento possuem. Porque é um karma bom”.
O executivo argumentou que esse reconhecimento financeiro virá porque alguém vai saber que essa mulher é uma pessoa boa para se confiar – “Esse é o
tipo de pessoa à qual eu quero dar mais responsabilidades. E a longo prazo, as
coisas vão acontecer”, afirmou o presidente da Microsoft.
A resposta de Nadella causou repercussão imediata das
participantes do evento, que manifestaram indignação pelas redes sociais. Diante
disso, o CEO resolveu justificar sua declaração pelo Twitter: “Não fui tão
claro ao responder sobre como mulheres devem pedir aumento. Nossa indústria
deve acabar com as diferenças salariais de gênero para que um aumento não seja
necessário por causa de um desequilíbrio”, comentou.
Cenário desigual
A disparidade entre homens e mulheres é uma realidade
inquestionável, assim com a predominância masculina no mercado profissional de
TI. Na Microsoft, essa situação reflete na composição de sua mão de obra globalmente: as mulheres correspondem apenas a 29% de seu quadro de funcionários.
E os números estão aí para salientar essa desigualdade também
na remuneração. Na América Latina, além de enfrentar taxas de desemprego 1,4
vez maior do que a dos homens, as mulheres recebem quase 30% menos que eles,
segundo relatório da ONU. Além disso, pesquisa publicada recentemente pela American
Association of University Women indica ainda que a diferença salarial aumenta
com a idade, ou seja, à medida que a mulher avança na carreira.
“Mulheres geralmente ganham cerca de 90% do que os homens são
pagos até os 35 anos de idade. Acima dessa faixa etária, o salário médio das mulheres
são tipicamente 75% a 80% do que os homens são pagos”, aponta a professora de
ética nos negócios Marianna Fotaki, da Warwick Business School (EUA).
A declaração de Nadella foi avaliada negativamente pela pesquisadora norte-americana. “Karma, denotando recompensa por atos de alguém em suas vidas
anteriores, soa muito absurdo para ser seriamente considerado por qualquer
pessoa se não tivesse tocado em uma questão real e importante: por que mulheres
continuam a receber salários inferiores aos homens e por que esta diferença de
gênero é crescente, especialmente em profissões bem remuneradas?”, comentou.