A transformação digital está na moda e veio para ficar. Mas nem todas as empresas estão preparadas para sua chegada. Estudo recente da Dell endossa essa questão ao concluir que em função das mudanças geradas pelo digital, 48% das companhias não têm ideia de como suas indústrias serão em três anos. Outro levantamento, realizado pela organização de software Bizagi, indica que nove em cada dez negócios enfrentam turbulência durante o processo de mudança. No Brasil, o número sobe para 96%.
Mas, afinal, o que impede o sucesso da transformação digital? Quais erros as organizações comentem? Ricardo Tiroli, especialista em transformação digital da CGI, empresa de TI e serviços, conta que o primeiro deles é que empresas começarem seus projetos de transformação pela tecnologia e, muitas vezes, investem em soluções desnecessárias. “Olhar a transformação é olhar o negócio. Estamos falando de mudar o negócio usando tecnologias digitais. Por isso, nesse processo é preciso voltar ao fundamento de revisar o negócio como um todo”, comenta.
Segundo ele, esse processo passa, naturalmente, por um direcionamento, no qual a companhia tem de definir o ponto de partida com base na sua estratégia. Ele lembra, ainda, que existe uma avalanche de tecnologias que surge todos os meses e há tentação por parte dos executivos de adotá-las porque é 'cool'’, mas no fim do dia não têm valor algum para os negócios. “A ordem é estratégia, negócios e depois tecnologia”, ensina.
Inovação, governança e capturar ideias são outros pontos fundamentais para dar andamento no processo de transformação digital, revela o executivo. Segundo ele, também é vital que empresas, ao ingressar no digital, comecem a pensar de forma ágil. “Estamos em uma era na qual as coisas são imediatistas, mas será que o time está preparado para isso? Uma transformação digital também pensa em como os funcionários vão se encaixar”, observa.
Um dica de Tiroli é que organizações, em busca de agilidade, mudem seus processos se aproximando do formato de startups. Isso significa que rápidas decisões se fazem necessárias, mas isso não quer dizer que é preciso abrir mão da visão estratégica.
A recomendação do especialista é que companhias montem laboratórios de inovação, que fomentem processos criativos e erro rápidos, o que, culturalmente, em empresas tradicionais é inaceitável. “A inovação pode acontecer em grande e pequenas coisas, mas nunca se pode deixar de pensar em processo e forma de gerenciar.” O ideal, prossegue, é iniciar com projetos pequenos, mas concatenados, que façam sentido para o negócio como um todo.
O maior erro de projetos digitais, segundo Tiroli, ainda é fazer a transição rapidamente, porém sem uma clara reflexão de como se preparar para ela. É um tiro no pé. “Isso pode ser altamente frustrante no sentido de mobilizar pessoas e não conseguir evoluir e dar sequência a inovações que tenham surgido”, assinala.
Outra recomendação importante, diz, é verificar qual estágio a empresa está. A inovação, segundo ele, deve, sim, ser absorvida, pois garante longevidade da empresa. “Mas se sua empresa quer tomar o caminho correto, precisa ter uma estrutura. Sou entusiasta do tema e acredito que transformação digital é algo que deve ser abraçado por todos e que as empresas se preparem para essa jornada. Companhias acham que não têm tempo, mas têm e se não fizerem nada, ficarão para trás. Nem toda transformação digital vai requerer que se crie um Uber, mas novos modelos e processos”, finaliza, propondo uma reflexão sobre o tema.