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Receita própria: o que a EDP Brasil aprendeu trabalhando com startups?

Gigante do setor elétrico tem investido em modelo de inovação aberta há cerca quatro anos. Até 2022, meta é dedicar R$ 30 milhões em venture capital

Publicado:
18/02/2020 às 15:00
Leitura
6 minutos

Existe uma receita para grandes empresas trabalharem com startups? A EDP, empresa de distribuição de energia elétrica, parece ter encontrado um caminho para isso. Em pouco mais de quatro anos de atividade com foco em inovação no Brasil, a subsidiária portuguesa já acumula diversos projetos em parceria com startups, um bom modelo de inovação interna e um veículo de investimento de capital de risco que planeja um investimento de R$ 30 milhões até 2022.

Mas quais são os segredos de uma parceria bem sucedida entre uma jovem startup que acaba de chegar no mercado e uma empresa de capital aberto que não pode dar um passo em falso? Para Lívia Brando, diretora de Inovação e Ventures da EDP (foto abaixo), não há uma receita exata a seguir. Ou seja, não adianta seguir reproduzindo o que a EDP faz com a expectativa que isso dê certo em outras organizações.

De acordo com a executiva, o grande aprendizado da EDP foi entender que cada momento, tamanho e objetivo exigem modelos diferentes. E isso se deu na prática. Mas, claro, a experiência também oferece algumas boas ideias e conclusões que outras companhias podem seguir.

Uma estrutura do zero

Quando assumiu o cargo em 2016, Lívia tinha uma área para montar do zero. Contava com a própria experiência na área de inteligência de mercado, além da experiência que a EDP já acumulava em seu programa de startups em Portugal, sede da companhia. Experiência muito útil, mas que não resolvia tudo. Afinal, estamos falando de situações distintas: em Portugal, quem procura a EDP são as startups. No Brasil, o movimento inicialmente se deu de forma inversa. Pouco conhecida, a companhia que teve de correr atrás delas.

A solução, de primeira, conta Lívia, foi importar o modelo que vinha dando certo na Europa, o EDP Starter. Já em 2017, o primeiro ano do programa no Brasil foi bem sucedido. De olho no mercado da época, a EDP mirou nas startups early stage – empresas que na avaliação da EDP, até então, não recebiam tanta assistência de empresa maiores. Foram 150 inscritos em um programa que estava atrás de soluções com foco no cliente e no chamado Smart Data.

A EDP gostou do que fez, mas poderia ficar melhor. “Muitas vezes as empresas que estão em fase muito inicial não tem a robustez que uma corporação precisa, então a partir de 2018 a gente pivotou um pouco o programa, começamos a focar em empresas que já estavam mais prontas”. O significado de “pronto” para a EDP é um startup que já tem clientes, paga suas contas e dá conta do recado que uma empresa experiente exige. Além disso, o processo do programa, que era relativamente longo, e mais disperso de objetivos práticos também foi encurtado.

Mais objetivo, o programa ampliou seu alcance no ano seguinte. De cinco empresas selecionadas para a fase de aceleração, 2018 teve dez. E em 2019 o programa foi alçado para uma escala internacional. Mais dez empresas selecionadas só no módulo para a América Latina. Um total de 25 empresas aceleradas em três anos. E uma novidade em 2019, prêmio em dinheiro para o 1º lugar do programa, no caso, 50 mil euros.

Para Livia, estava dado o sinal de que o programa deveria focar menos em ser um espaço de mentoria e capacitação e mais uma área de oportunidades e desenvolvimento de soluções e de negócios estava certa. Sem tempo a perder para ambos os lados da cadeia.

Aí, talvez, uma lição que vale ser replicada pelas grandes empresas: respeitar a startup. Isso dá credibilidade. Não só na questão do tempo. Está no método da EDP interferir pouco nas startups aceleradas. O contato direto com os empreendedores ainda deu outra lição: as próprias startups exigem esse tipo de cuidado, já que também têm pouco espaço e tempo para o erro. Quanto antes ficar evidente que a parceria não vai dar jogo, por exemplo, melhor para todos.

“É uma relação muito clara, a gente não pede participação para ela entrar no programa, é o começo do namoro, conhecer o empreendedor”, explica Livia.

“A EDP joga na confiança e muito disposta a colocar os problemas para serem solucionados”, elogia Andre Almeida, fundador da Dom Rock, ao destacar a transparência que a EDP teve com sua empresa no programa Starter. Em 2018, a Dom Rock ficou em segundo lugar no programa, mas conseguiu abrir uma porta e tanto. Especializada em extrair a partir de dados não estruturados informações úteis para o negócio, eles são uma das primeiras empresas brasileiras que receberam investimento de venture capital da EDP – junto com a Criatec 3, fundo gerido pela INSEED Investimentos, foi anunciado um coinvestimento de R$ 6,5 milhões na Dom Rock.

A vez do venture capital

Mais madura no contato com startups, em 2018 veio mais um braço do setor de inovação da casa, a EDP Ventures Brasil, primeiro veículo de investimentos de capital de risco do mercado elétrico brasileiro. Na Venture, a EDP segue a linha de aprendizado que o setor de inovação deixou ao longo de sua construção gradual. Participação minoritária. Zero interesse em controlar a startup. Um trabalho focado em parceria que gere soluções e negócios.

Além da Dom Rock, a cearense Delfos e a catarinense Fractal Engenharia e Sistemas, ambas com soluções específicas do setor elétrico também são outras empresas contempladas com investimento. Dos R$ 30 milhões previstos até 2022, R$13,5 milhões já foram investidos.

O olhar para o sucesso dos investimento de venture também é bem particular: “Com o Venture a gente tem dificuldade de medir o valor, mas temos outras métricas, estamos ajudando a empresa a crescer? Acompanhamos o faturamento, geração de empregos, medimos estatísticas
de gênero, se tem mais mulheres, mais homens, como fomentam a diversidade. Medimos se pode gerar contrato com a EDP, se eu conecto ela com o ecossistema. Tem várias métricas ao longo do tempo, não é só o lucro que mostra se estamos com a estratégia correta”, finaliza Luisa.

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