Em operação há menos de um ano no Brasil, as redes de terceira geração da telefonia celular (3G) em 850 mhz e 2,1 ghz têm grande apelo comercial pela maior velocidade de transmissão de dados que elas oferecem. Mas a velocidade de conexão em si não é o que faz da 3G uma divisora de águas para os projetos de mobilidade das empresas.
Aliada às taxas de transferências maiores, encontra-se também a capacidade de rodar aplicações mais complexas e com mais recursos nos smartphones e PCs ultraportáteis (UMPCs, na sigla em inglês), oferecendo na mobilidade uma experiência mais próxima à que se tem na mesa do escritório. A IDC estima que a venda de aparelhos convergentes para as empresas vai saltar de 7,3 milhões de unidades, em 2005, para 63 milhões em 2010 no mundo.
De acordo com a Global Mobile Suppliers Association (GSA), ao fim de julho deste ano, 724 aparelhos high speed downlink packet access (HSDPA) estavam disponíveis no mercado mundial, sendo 358 modelos de celulares e PCs ultraportáteis, 108 placas de conexão, 107 notebooks e 76 modems. Esta tecnologia é utilizada atualmente pelas operadoras no Brasil, e oferece uma boa velocidade para o envio de informações para os celulares.
No mercado nacional, a disponibilidade de equipamentos ainda é pequena, acompanhando a implantação das redes (veja algumas novidades nas páginas 36 e 37). No entanto, nada disso impede que testes comecem a ser feitos por corporações que vislumbram uma revolução impulsionada pela 3G. Envio de imagens de documentos com boa resolução para aprovação imediata de propostas de crédito, conferência entre força de venda e profissionais de back office em visita a clientes, complemento à rede Wi-Fi, capacidade de oferecer mais recursos para o acompanhamento do desempenho do negócio. Estas são algumas das aplicações que empresas como a ATP, proprietária da Rede Verde-Amarelo de caixas eletrônicos, o laboratório Boehringer Ingelheim do Brasil, Vex e o Banco BMG estão implementando, ou avaliando, para se beneficiar da nova tecnologia.
Cobertura
Com o roll out das redes pegando embalo, a cobertura ainda é restrita. Oi e Vivo não anunciaram o início das operações em 3G nacionalmente – a Vivo tem uma rede na região de Belo Horizonte, oriunda da Telemig Celular. A Claro chega a 84 cidades em todo o País e a TIM conta com rede em outras 20 cidades. A CTBC atende às cidades de Uberaba (MG), Uberlândia (MG) e Franca (SP). Já a Brasil Telecom, tem dez. “Este ano é de posicionamento, de fazer o dever de casa”, afirma Erasmo Rojas, diretor para América Latina e Caribe da 3G Americas.
Para Rojas, a briga pelo mercado deve começar no ano que vem. A 3G, diz ele, significa uma mudança de perfil para as operadoras, que terão de passar de vendedoras de conexão para vendedoras de aplicações. “Os prestadores de serviço estão começando a pensar em como segmentar a oferta dependendo do tipo de empresa com que ela trabalha”, comenta. Mudar o foco da venda de conexão para a oferta de aplicações é uma boa notícia, pois representa uma grande oportunidade para as operadoras aumentarem suas receitas com o tráfego de dados, hoje, estacionadas na casa dos 8%, enquanto em países vizinhos, como a Argentina, chegam a 30% do faturamento.
No cronograma da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a cobertura da 3G deve abranger todos os municípios com mais de 200 mil habitantes nos próximos quatro anos. Dois anos antes, todas as capitais, Distrito Federal e cidades com mais de 500 mil habitantes também deverão ter acesso à tecnologia. Neste período, mais de 1,8 mil municípios que atualmente não têm cobertura da telefonia celular, passarão a contar com o serviço, só que em 2G.
Para Rubens Nascimento Pinto, CIO do laboratório Boehringer Ingelheim do Brasil, a chegada da 3G muda o jogo e exige revisão nos processos de negócio. “Antes, eu não conseguia que alguém de back office estivesse no campo. Com a 3G, eu consigo”, comenta. Esta é uma das propostas do projeto que a empresa começou a implantar com testes de 3G: permitir que a força de vendas faça videochamadas para a área de trade, o que pode melhorar muito o time-to-market para campanhas e ações de marketing.
A adoção deste recurso depende, no entanto, da revisão dos processos de trade marketing e da contratação de um gerente para a área. Enquanto espera, a TI prepara-se para oferecer o novo recurso e aposta na localização por GPS, no aumento da velocidade para acesso ao portal de vendas e da segurança para os vendedores. “Em alguns lugares, não é bom que o vendedor use o notebook dentro da farmácia.”
O piloto com dez aparelhos tem roll out previsto para meados de agosto, chegando a 50 dispositivos. Além de celulares 3G, a Boehringer também aposta no uso das placas de acesso à internet por seus representantes e executivos – já são cem dispositivos. À medida que a cobertura da 3G aumentar, completa o CIO, ela irá substituir as redes sem fio montadas pela empresa nas casas de seus 450 representantes para que pudessem ter acesso à banda larga.
Nascimento Pinto lamenta o fato de aplicativos de ERP, por exemplo, ainda não estarem adaptados para receber conteúdos de áudio e vídeo. “A tecnologia evoluiu mais rápido que os softwares, eles tinham de estar com mais maturidade”, pontua. Mas o caminho é irreversível. Em meados de julho, por exemplo, a Oracle anunciou um aplicativo desenvolvido especialmente para o iPhone. O Oracle Business Indicators, como o próprio nome diz, oferece apenas indicadores de desempenho “relevantes para a função do usuário”, aproveitando da mobilidade e da interface amigável do aparelho da Apple.
Nenhum recurso adicional mais avançado, como o uso de vídeo, voz, etc., está disponível, mas a Oracle afirma que “pretende lançar ricas soluções de CRM para o iPhone com aplicativos que ajudam os usuários a manter a produtividade em trânsito, colaborar e compartilhar informações com amigos e clientes, além de gerenciar leads, contas, oportunidades e previsões”.
Poder do iPhone
Sem nem ter chegado ao País, o telefone da Apple é tido como um dos grandes impulsionadores da adoção da 3G. Não só pelo aparelho em si – apesar de Raul Ferreira, diretor-geral da FingerTips, empresa criada com foco específico no desenvolvimento de aplicações corporativas para o aparelho, afirmar que já tem seis propostas em negociação com empresas de diversos segmentos- mas por fazer parte de uma nova leva de dispositivos que chega ao mercado com recursos avançados e interfaces amigáveis.
Além disso, estes novos aparelhos concentram suas aplicações em sistemas que ou têm relação ou aproximam muito sua interface de uso e desenvolvimento do mundo dos desktops, como o Windows Mobile, RIM OS, Symbian, Mac OS e, em pouco tempo, o Android, sistema de código aberto bancado pelo Google. Uma “padronização” há muito demandada pelo mercado de telefonia móvel.
Na ATP, dona da Rede Verde-Amarelo (RVA) de caixas eletrônicos e correspondentes bancários, a 3G também está nos planos para melhorar a produtividade dos funcionários, mas o uso vai além: ela está sendo usada na expansão da rede própria da empresa. Inicialmente, serão instaladas 50 novas salas de auto-atendimento RVA, sendo a maior parte no Estado de São Paulo, algumas no Distrito Federal e outras em Porto Alegre. Elas se unirão à rede de 10 mil pontos de atendimento e 35 mil terminais que atendem 14 bancos.
De acordo com César Franceschi, diretor-comercial e de marketing da ATP, a opção por uma rede mais veloz aconteceu por conta da mobilidade – os links dedicados também têm o desafio da gestão, comenta – e para viabilizar o projeto de ter aplicações mais complexas nos equipamentos, como a compensação automática de cheques e de dinheiro depositados nos caixas. Com uma boa taxa de compressão, e mantendo a qualidade da imagem gerada, os terminais, desenvolvidos pela própria ATP, eliminam a interferência humana na compensação, pois conseguem verificar pontos de segurança e liberar os depósitos automaticamente.
Internamente, a ATP também está apostando no uso de placas de conexão à internet. Segundo Franceschi, até meados de agosto, os 25 gerentes-comerciais da empresa terão o equipamento. Para o pessoal de campo, uma novidade também está prevista. Além da já utilizada caneta digital para a captura de contratos, com os aparelhos 3G eles poderão tirar fotos com maior resolução dos documentos apresentados para a concessão de crédito e aprovar a operação na hora. “As limitações técnicas ficam reduzidas”, comenta.
Maior comodidade
Unindo as redes Wi-Fi e 3G, a Vex pretende reduzir o tempo que seus clientes ficam parados em hotspots. Pensando nisso, ela desenvolveu o Wi-Fi 3G. “A idéia é que ele possa estar conectado 100% do tempo, com um sistema onde as tecnologias se complementam”, destaca Camila Junqueira, gerente de marketing da empresa. Inicialmente, o VexBox – ponto de acesso desenvolvido pela Vex no começo deste ano – será oferecido a empresas de transporte executivo. Instalado nos ônibus fretados, o equipamento permitirá que, enquanto estiver em deslocamento, o usuário aproveite a mobilidade da 3G. Parado, ele contará com as maiores velocidades oferecidas pela rede Wi-Fi. Até o fim do ano, Camila acredita que um contrato seja fechado. Para 2009, pelo menos quatro por semestre devem ser feitos.
No Banco BMG, o gerente de tecnologia, Renato Almeida, está com a casa pronta para a 3G, e os testes com aparelhos já começaram a ser as operadoras oferecem velocidades máximas de 7,2 Mbps). Já que a banda larga nos dispositivos móveis é uma realidade, é melhor começar a planejar com quais aplicações sua empresa tirará melhor proveito dela.