“Precisamos segurar a ansiedade, porque a tecnologia blockchain ainda não está madura”. A afirmação é de Gustavo Fosse, diretor de tecnologia do Banco do Brasil e diretor setorial de tecnologia da Febraban (Federação Brasileira de Bancos). O executivo participou do primeiro encontro sobre blockchain promovido pela Febraban, nesta quinta-feira (27/04), para apresentar os primeiros resultados dos debates realizados pelo comitê criado no ano passado para estudar a tecnologia.
A criação do grupo e de um evento específico para tratar o tema prova que o blockchain está entrando cada vez mais na pauta dos bancos. Não as criptomoedas, já que essas, segundo o coordenador do grupo, Adilson Fernandes da Conceição, ainda não estão na pauta da Febraban. A discussão do momento é tudo que a tecnologia blockchain pode trazer de impacto aos negócios, ou seja, a plataforma que suporta essa aplicação de bitcoins. Para a Febraban, portanto, blockchain não é uma ameaça, mas sim oportunidade.
Mas quando os bancos estarão aptos para de fato aplicar o blockchain? Joaquim Kiyoshi Kavakama, superintendente geral da CIP, acredita que teremos um “nível razoável de maturação” desta tecnologia em no mínimo 3 anos, por isso a necessidade de dar um passo de cada vez, mas o mais importante: dar esses passos.
“Para o cliente é imperceptível o que tem por trás, se é blockchain ou qualquer outra tecnologia. O que interessa é o valor e comodidade para o cliente. Existe confiança de que essa tecnologia trará valor no processo. É uma das iniciativas que fazem parte da nossa evolução digital, o blockchain também é uma delas. Essa discussão está na agenda dos nossos executivos de negócios, seja varejo, atacado etc. Temos agenda intensa com eles, seja trazendo conceito – o que é blockchain, DLT, como pode traze vantagens – quanto nas aplicações.”, afirma Igor Freitas, superintendente de arquitetura enterprise do Itaú Unibanco, que, assim como os outros executivos que participaram do painel, defende o principal foco da tecnologia: benefícios aos clientes.
Essa proximidade às outras áreas de negócios, citada por Freitas, é o que, para Fosse, tem causado essa ansiedade. “A ansiedade aumenta muito. Estamos trabalhando com a divulgação, trazendo todas as áreas e níveis para discussão, mas colocando que ainda estamos em laboratório. Essa tecnologia vai revolucionar e enxergarmos diversas oportunidades, mas temos que segurar ansiedade para não tocar os pés pelas mãos”, pondera.
O laboratório, no caso, são experimentações que os bancos já estão realizando. São avanços, mas ponderados. No Bradesco, por exemplo, desde 2014 uma equipe de desenvolvedores e pesquisadores tem trabalhado no desenvolvimento de soluções para oportunidades de implementação. “Além disso, estamos estudando soluções que vêm de startups por intermédio do InovaBra e estamos verificando soluções que possam agregar valor a esse processo de blockchian”, comenta Antranik Haroutiounian, diretor do departamento de pesquisa e inovação do Bradesco.
“Estudamos a tecnologia, agora precisamos ter muita calma e segurar nossa vontade. Temos muito a evoluir para conseguirmos implementar com segurança. Temos algumas barreiras para vencer, mas o principal é trazer nossas áreas de negócios para saber o que podemos agregar de tecnologias e processo”, adiciona Fosse, que acredita ser uma tecnologia revolucionária e que trará novidades para os sistemas, mas não como substituição de algo que já existe atualmente.
Cooperação vs competição
No blockchain, os registros são encadeados, de forma que cada novo registro dependa do registro anterior. Esses registros são blocos de transações – daí o nome blockchain (cadeia de blocos). Ao mesclar o conceito de um livro-razão, que contém as entradas contábeis de uma empresa com seu caráter descentralizado, o blockchain também passou a ser chamado de distributed ledger (livro-razão distribuído, conhecido pela sigla DLT).
Por ter registros encadeados, a tecnologia blockchain depende da colaboração, por isso traz a discussão: como ficará a concorrência entre os bancos? “É um processo colaborativo, não de concorrência. O grande desafio é a gestão, o entendimento entre as partes envolvidas no processo, os envolvidos na cadeia do blockchain”, comenta Haroutiounian.
Fosse afirma que no Banco do Brasil foi criado um laboratório para cases, enquanto na Febraban, foi criado esse grupo em que os bancos estão trazendo suas experiências dos seus laboratórios. “A primeira coisa dessa tecnologia é compartilhar o conhecimento. Ela vem para compartilhar. O que fazemos em casa compartilhamos e os outros bancos também”, completa.
Freitas, por sua vez, comenta que alguns bancos já patentearam algumas soluções por serem grandes apostas. No entanto, diz que a tecnologia traz cooperação. “Impossível aplicar movimento sem participação dos outros.”
Caso prático
O grupo de trabalho, composto pelos bancos membros da Comissão Executiva de Tecnologia e Automação Bancária (CNAB) da Febraban: Banco do Brasil, Bancoob, Banrisul, Bradesco, BTG Pactual, Caixa, Citibank, Itaú Unibanco, JP Morgan, Safra e Santander. Também participam Banco Central, CIP e B3 (a nova empresa resultante da fusão da BM&FBOVESPA e Cetip), demonstrou o funcionamento de um case de cadastro digital, totalmente fictício e sem fins comerciais, na plataforma Corda, que usa o conceito de DLT. O protótipo teve como base um cadastro fictício para o compartilhamento de dados entre os participantes de uma malha de blockchain.
No experimento, a instituição que deseja compartilhar o cadastro registra dados em um ambiente distribuído e pode optar em compartilhar a informação com um dos participantes da plataforma, vários deles ou todos. O grupo de trabalho Blockchain Febrabanrealiza agora teste do mesmo projeto, com outra plataforma, a Hyperledger – um projeto colaborativo para a construção de uma plataforma de blockchain de código aberto. A previsão é que o experimento termine na segunda quinzena de maio. A meta do grupo é testar diferentes plataformas permissionadas para analisar o desempenho de cada uma nas experimentações.