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TI em Saúde: setor luta por mudanças de paradigma

Publicado:
03/11/2009 às 08:05
Leitura
14 minutos
TI em Saúde: setor luta por mudanças de paradigma

Segunda-feira em São Paulo. Dia chuvoso e trânsito mais intenso que o normal. Em um cruzamento movimentado, um acidente envolvendo dois carros chama a atenção. Uma pessoa fica gravemente ferida e é encaminhada para um pronto-socorro público. Ao dar entrada, uma ficha é preenchida. Mas pouco se sabe sobre este paciente. Nesta situação hipotética, a pessoa tem assistência médica e, depois de melhorar, segue para uma instituição da rede privada de cobertura. No entanto, ao ingressar, precisará fazer todo procedimento novamente: relatar o acidente, descrever o que foi feito no hospital anterior, enfim, assuntos que, possivelmente, ela nem se lembra direito para que possa passar por um médico de confiança ou mesmo fazer um exame mais detalhado.

A conjuntura descrita acima poderia ocorrer em qualquer cidade, com ordem alternada ou por qualquer outro tipo de emergência. Destacar uma suposta sequência de fatos serve para ressaltar que, se houvesse um sistema de registro eletrônico de saúde, todas as informações do primeiro atendimento no hospital público estariam neste histórico e o paciente não precisaria repeti-lo ao chegar à instituição particular. E, mais, no primeiro atendimento, a junta médica saberia, por exemplo, se ele era portador de alguma doença, se era alérgico a determinado medicamento ou se passou por cirurgia recentemente. Enfim, funcionaria como um banco de dados completo com protocolo padrão de troca de informações. Este protocolo resolveria também as dores de cabeça que a TI ainda tem para integrar sistemas, algo que a maioria dos hospitais resolve por meio de desenvolvimento de interfaces.

Vista por especialistas da área como o “mundo ideal”, essa base centralizada e com possibilidade de interação do paciente, que atualizaria o registro com informações importantes para a gestão da saúde via plataforma web, deve despontar como um dos principais desafios para a TI dos hospitais e órgãos públicos ligados à saúde no longo prazo. Atualmente, existem iniciativas isoladas, mas muito longe da integração total, o que seria possível apenas quando o governo federal fizesse algo para tornar eletrônica a base do Sistema Único de Saúde (SUS), que hoje responde por cerca de 75% dos atendimentos no País. Mas isto, como dito, é longo prazo.

Enquanto as coisas se delineiam em rodas de conversas, sobretudo, em instituições nas quais a TI está mais avançada, outros desafios pautam a tecnologia da informação dos hospitais brasileiros neste momento. E, sem dúvida, um dos principais deles é a eliminação do papel. Algo que não acontecerá do dia para noite e demandará muita paciência. “Culpa da cultura médica”, aponta Margareth Ortiz de Camargo, superintendente de TI do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, como sendo um dos principais obstáculos. “A direção investe, compra equipamentos e softwares, mas o médico precisa usar”, comenta.

A ressalva da executiva mostra-se importante por se tratar da realidade de um dos hospitais que mais investem em tecnologia no Brasil. O Sírio-Libanês possui sistemas de prescrição eletrônica, estrutura para prontuário eletrônico, softwares integrados (o que é uma dificuldade, dado que as fabricantes não trabalham com um protocolo padrão) e uma equipe interna de 30 pessoas preocupada em levar o que há de melhor para os 3,5 mil funcionários e 2,5 mil médicos colaboradores. Peças fundamentais quando o assunto é sumir com o papel dos consultórios. São 5 mil usuários cadastrados no sistema. “Até o rapaz da limpeza utiliza para dar baixa no quarto que limpou”, sinaliza.

Mas esse dilema não é exclusividade dela. Sérgio Arai, CIO do Hospital Israelita Albert Einstein, também em São Paulo, lembra que todos os hospitais buscam a digitalização completa dos serviços. “Isto envolve processos. O uso do papel é forte na cultura médica”, concorda com a colega. “No geral, vários setores avançaram muito, tem automação grande, mas na saúde ainda há muito papel”, acrescenta, lembrando que sua equipe tem focado a atuação também em construir aplicativos para diferentes áreas, melhorar segurança e criar serviços para os pacientes.

Quebrando a barreira

Essa situação descrita ocorre mesmo no corpo clínico do Einstein, um dos mais informatizados do País, com, inclusive, programa de mobilidade. Nas palavras do próprio CIO, “eles [os médicos] gostam de TI e cobram pelo desempenho das ferramentas.” Apesar de entender que é grande o desafio em relação à redução de papel, Arai acredita que algo neste sentido deve acontecer no curto prazo. “Os avanços na saúde passam por digitalização.”

Outro que também trabalha com este fim é Érico Bueno*, diretor de TI, engenharia e infraestrutura do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). A instituição existe há pouco mais de um ano e tem servido de exemplo na aplicação da tecnologia – os telefones são VoIP, existem três redes wireless dentro do instituto, as imagens são digitalizadas e os sistemas estão integrados. O executivo mostra-se satisfeito com os resultados obtidos até agora. O sistema de prescrição eletrônica, por exemplo, é utilizado por quase todos os médicos. “Funciona bem no pronto-socorro e na UTI, que são locais onde se prescreve muito, mas ainda temos resistência nos consultórios clínicos”, reconhece.

O instituto que, em um ano, realizou quase 100 mil procedimentos, possui também um sistema de prontuário eletrônico. Ainda assim, Bueno ressalta que existe um grande obstáculo a ser superado. Acabar com o papel, envolve assinatura digital e, antes, não havia lei ou informação sobre como fazer isso. “Agora, seguimos uma diretriz do CFM [Conselho Federal de Medicina] que reconhece a eliminação do papel e assinatura eletrônica. É um projeto de grande porte que deve consumir mais de um ano.”

Contudo a expressão “mudança de paradigma” não preocupa Bueno. Pelo contrário: ele foi responsável pela adoção da digitalização de imagens no Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ele recorda que, na ocasião, houve resistência, mas aponta que hoje os profissionais da área não viveriam sem. “Quando fizemos a troca do filme para digital, pegamos o médico mais antigo da casa e o ensinamos. Ele se tornou exemplo. Se o mais antigo usava, os outros também poderiam”, relembra do fato ocorrido há mais de dois anos.

O apego pelo papel é tamanho que no Einstein e no Sírio, embora existam sistemas de prescrição eletrônica, há uma equipe responsável pela transcrição da receita prescrita pelo médico. Margareth, do Sírio-Libanês, acredita, entretanto, que, apesar do desafio, o momento é bom. “Temos informações e automação do fluxo do paciente em relação ao atendimento. Conseguimos automatizar muitas coisas, mas a evolução [do quadro clínico do paciente] não dá. Você não transcreve isto, não recupera o texto. Minha esperança gira em torno dos conselhos, para que façam exigência para colocar os médicos na era da informática”, apela a CIO.

Exemplo a ser seguido

Do Rio Grande do Sul, mais precisamente do bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, sai uma experiência bem-sucedida. Ainda há papel, é verdade, mas o processo para que ele seja eliminado talvez esteja mais próximo do que se vê em outras praças. No Hospital Moinhos de Vento, a prescrição é praticamente 100% eletrônica. Como lembra Mário Torcato, gerente de informática da instituição, existem algumas exceções, como, por exemplo, quando o sistema passa por manutenção. “O hospital está totalmente integrado, desde a recepção até o pagamento. Nosso nível de informatização é muito grande”, garante.

O hospital gaúcho também trabalha com prontuário eletrônico – há anos, como frisa Torcato – e todos os consultórios têm um PC com acesso ao sistema, assim como no Sírio-Libanês, Albert Einstein e Icesp. Praticamente tudo passa pelo ERP fornecido pela MV Sistemas. Apenas o módulo de prontuário é desenvolvido internamente, porque, na época da implementação, a fornecedora ainda não possuía uma solução finalizada para esta função.

Assim, quando um paciente se trata no Moinhos de Vento, possui todo seu histórico no sistema (Einstein, Sírio-Libanês e Icesp também, mas sem o relato da consulta). Lá, os médicos atualizam, inclusive, a evolução do quadro clínico desta pessoa e, por isso, a instituição esteja um pouco à frente na empreitada para banir o papel. “Só imprimimos as coisas por questões legais. Ainda não tem a questão da assinatura eletrônica e será algo em escala. As fontes pagadoras precisarão aceitar também. Será um trabalho grande de implantação”, justifica Torcato.

Mas, mesmo com esse avanço, o hospital encara desafios que para outros já foram superados e, para a maioria, ainda é sonho de consumo, como a digitalização de imagens de tomografia, raio X e outros exames. Isto já está em andamento e o processo deve transcorrer até o fim deste ano. Outro esforço na instituição segue na direção de digitalizar documentos que não estão no sistema. Seria mais um passo em direção à eliminação de papel. “Estamos sintonizados com a estratégia do hospital e trabalhando para dar todas as condições.”

Correndo para não perder tempo, a Rede D”Or, que congrega 42 unidades laboratoriais e 13 hospitais, sendo dez no Rio de Janeiro e três em Pernambuco, tem alocado muito investimento em tecnologia da informação. Como informou Marcelo Pina, diretor de plataforma de serviços corporativos, este foco vem desde 2007, quando a rede elaborou um projeto onde o principal objetivo era a expansão do grupo. “Sentamos com a TI para definir o papel dela. Precisávamos estabelecer um conceito para o ERP. Desenhamos um template padrão e montamos um projeto de integração da ferramenta”, explica.

A ideia era padronizar e integrar os procedimentos e processar as informações de forma centralizada. Na parte de back office, o executivo buscou parceria com a Totvs. As implantações ocorreram primeiro nos hospitais e depois chegaram às unidades laboratoriais. A conclusão completa deve acontecer até o primeiro trimestre de 2010. Todos estes passos permitiram criar um conjunto de indicadores e padronizar as métricas da gestão. Ou seja, as ferramentas proporcionam a realização de comparativos entre unidades e áreas, o que antes era muito complicado. A próxima etapa será tornar as comparações online, sem a necessidade de gerar relatórios.

No entanto, a rede está defasada com relação a papel. Há muito trabalho pela frente, começando por um grande projeto de registro eletrônico de saúde, o que deve consumir cerca de dois anos. Pina salienta que o projeto não se restringe ao prontuário eletrônico. Quando o sistema estiver concluído, o paciente da Rede D”or poderá acessar o cadastro pela web e interagir, incluindo informações importantes para a gestão da própria saúde. “Queremos eliminar o papel e queremos lidar com o pacote de informações da saúde dos usuários. Quanto mais preocupação com a saúde, mais ele vai gerenciar a saúde. São indicadores como peso, pressão, triglicérides, entre outros”, revela.

Diversidade brasileira

Por mais que os hospitais citados nesta reportagem tenham seus desafios, deve-se ressaltar que a realidade brasileira é muito diversa. O País possui mais de 203 mil estabelecimentos de saúde – entre clínicas, hospitais, ambulatórios, laboratórios, entre outros – totalizando quase 500 mil leitos. Um pouco mais de 6,5 mil são hospitais e, a maioria, de pequeno porte. Estes dados, do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, da Secretaria de Atenção à Saúde, do Ministério da Saúde, apontam para o complexo retrato do setor no Brasil. Além de muitos estabelecimentos, este segmento é extremamente fragmentado, calcula-se que 70% dos hospitais brasileiros tenham menos de 80 leitos.

Toda essa dimensão faz com que algumas praças tenham evoluído mais que outras, resultando em desafios diferentes para cada localidade. Tanto é que, quando consultado, o presidente do conselho deliberativo da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Henrique Salvador, cita como principal desafio uma ferramenta de TI que suporte toda a operação do negócio. “Em termos básicos, sempre foi difícil achar uma solução que suportasse com segurança a operação hospitalar. No Brasil, são três ou quatro fornecedores que avançaram no estudo e integração de sistemas”, ressalta Salvador.

No Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife (PE), a realidade da TI é um pouco do retrato dessa diversidade brasileira. Mesmo quando comparado com o Icesp, que é uma iniciativa do governo paulista, a realidade é outra, isso porque o instituto é administrado por uma fundação e fica livre dos trâmites burocráticos da vida pública.

No prédio de 11 andares e cerca de 400 leitos está o desafio de Manuel Valadão, coordenador de informática do HC da UFPE. Com nove pessoas em sua coordenadoria, ele trabalha basicamente para garantir suporte aos 250 computadores de sua rede. Os consultórios ainda não têm PC e isto deve demorar. Ele já conseguiu colocar máquinas nos postos de enfermagem o que alivia as dificuldades. “Meu maior desafio hoje é integrar os setores, a expansão da rede. Não temos redes nas salas e queremos integrar o hospital. A rede de informática funciona para o setor administrativo e marcação de consultas”, informa. 

Tudo roda em plataforma Linux, gerando uma dificuldade de interfaces de programas quando existe compra de equipamentos. Mas este problema Valadão tem resolvido ao inserir no edital a obrigatoriedade do vencedor prover a integração com o sistema hospitalar, fornecido por uma empresa de Campina Grande; em casos extremos, ele recorre a este parceiro para criar a interface. Atualmente, o executivo toca dois projetos grandes: a digitalização de imagens e o prontuário eletrônico. Esse movimento é feito em conjunto com o núcleo de Telemedicina da universidade que, por meio de um projeto apresentado ao CNPQ, montará um piloto, testará e dará as diretrizes para a implantação no HC. “É projeto, mas vamos querer uma unidade avançada de 40 terabytes para armazenar as imagens”, avisa. Haverá substituição de máquinas e, no total, R$ 1,3 milhão deve ser investido.

Assim como as carências existentes no dia a dia dos hospitais, principalmente quando se vai para o interior do Brasil, a TI, em determinados momentos, convive com realidades muito distantes daquela que seria considerada ideal, sobretudo se retomar a ideia do início desta reportagem de plataforma de registro de saúde integrada, na qual, em qualquer estabelecimento de saúde, um brasileiro chegaria e teria seu histórico à disposição do médico.

O setor privado, em alguns casos, dispõe de recursos que se aproximam dos melhores centros de saúde no mundo, mas, passando ao setor público, existem unidades onde nem computador existe. De fato, há muito que evoluir. “É interessante olhar artigos internacionais. Há um consenso de que, se usar a TI, terá benefícios. Reduz custo, melhora satisfação do paciente. Temos de evoluir muito. Talvez o (Barack) Obama ajude. A troca de informação, por exemplo, ele está impondo”, divaga Arai, CIO do Einstein, dizendo acreditar que a transformação dos processos aumenta até a eficiência do trabalho do médico.

*Erico Bueno deixou a TI do Icesp no final de setembro, depois de conceder a entrevista à InformationWeek Brasil.

Leia também:

TI em saúde: 9 lições com prontuário eletrônico

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