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Vida longa ao mainframe: a trajetória de um baby boomer

Publicado:
04/09/2009 às 08:21
Leitura
5 minutos
Vida longa ao mainframe: a trajetória de um baby boomer

Poucos são os profissionais de tecnologia que conseguem sobreviver por tantos anos no mundo corporativo, em meio às constantes transformações provocadas pela era digital. Com a revolução da internet , TI passou a ser uma área invadida e dominada, cada vez mais, pela intrigante geração Y – formada por jovens entre 18 e 30 anos.

Vencer a linha do tempo é um desafio, principalmente porque as empresas vêm privilegiando o “sangue novo”. Uma dura realidade que atinge quase todos os que tentam o mercado de trabalho. Neste cenário, é difícil encontrar profissionais que tenham passado a casa dos 50, mas uma leva de executivos resiste bravamente.

São os chamados “dinossauros” da indústria de tecnologia no Brasil. No bom sentido, claro. O engenheiro eletrônico paulistano Luiz A. Fadel é um deles. Formado em um dos mais renomados celeiros de profissionais de engenharia do País, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), ele conta com uma trajetória profissional ímpar.

Assistiu aos efeitos da reserva de mercado – que protegeu a indústria nacional de informática – e ao sobe e desce de uma tecnologia que depois de altos e baixos continua forte no Brasil – o mainframe. Agora, aos 63 anos, e 40 de experiência em sistemas de grande porte, continua com o mesmo gás e energia de quando começou a carreira. Reconhece que ainda tem muitos anos de estrada pela frente. Fôlego de causar inveja a qualquer um que tenha se formado já na era digital.

“Desemprego não é uma palavra que faz parte do vocabulário dos especialistas em mainframe”, afirma Fadel. “Nem mesmo para nós da geração baby boomer”. A falta de gente qualificada para atuar com a tecnologia – que vive um momento de retomada no Brasil – tem trazido de volta ao mercado muitos profissionais que já haviam pendurado as chuteiras.

Sem planos de sair de cena, o executivo conta um pouco de sua experiência ao longo de duas décadas, toda construída na gigante IBM. Confira trechos da entrevista que Fadel concedeu à Computerworld:

Computerworld  – Sua carreira foi construída em uma das tecnologias mais antigas e que ainda continua forte no mercado, sobretudo o brasileiro. Que razão o levou apostar nessa área?

Luiz A. Fadel  – Sem dúvida, há muitas oportunidades interessantes que o mercado de mainframe oferece. Em todos os meus 40 anos de carreira, só lembro um momento crítico para os profissionais dessa tecnologia. Na década de 90, com o auge dos PCs, a demanda por sistemas de grande porte sofreu retração. Quadro que anos depois teve recuperação.

Apesar dos percalços, a plataforma evoluiu bastante de 1964 (quando comecei) para cá. Não falo da base dela, que permanece a mesma, mas do que é adicionado a ela, exigindo do profissional estar sempre se atualizando. Todo dia há coisas novas.

E engana-se quem pensa que o mainframe morreu. Pelo contrário, é um sistema que completa o parque de muitas empresas por atender a necessidade de transações mais robustas. Prova disso é que ainda existe uma forte demanda.

CW – Desde que ingressou na IBM, que momentos o senhor elenca como os mais marcantes?

Fadel – Quando entrei, em 1969, a empresa era umas das poucas – fora ela, existiam só outras duas – a atuar com sistemas de grande porte, os conhecidos mainframes. Logo de cara tive o privilégio de participar de projetos envolvendo grandes bancos brasileiros que, na época, tornavam-se os maiores consumidores da tecnologia. Também estive envolvido na primeira instalação do Mainframe Operating Systems (Mainframe OS) no País, assim que fui promovido à analista de sistemas.

CW – Hoje acabou o tempo em que os profissionais “vestiam a camisa” da empresa. Como o senhor enxerga a opção de ter feito carreira em uma única companhia?

Fadel –  Comecei como trainee em vendas, assim que saí da faculdade, e estou na empresa até hoje porque sempre vi grandes oportunidades de ascensão profissional dentro da carreira técnica. Nunca precisei mudar de rumo para dar saltos. Tanto que hoje cheguei a um cargo equivalente ao de um diretor com carreira em negócios,  que a IBM chama de distinguished engineer. 

É o posto mais alto da empresa na área técnica. Na subsidiária brasileira, só três profissionais têm esse título. Eu fui o primeiro a conquistá-lo aqui, em 2003. No mundo, existem cerca de 200 pessoas com o posto. Ou seja, uma grande realização na carreira que não posso ignorar.

Também não podemos esquecer que a IBM sempre foi uma multinacional sólida e de peso. Além de abrir as portas para que os funcionários possam ter experiência profissional fora do Brasil. Eu mesmo estive por duas vezes trabalhando nos Estados Unidos, somando um total de seis anos – a primeira fase entre 1977 e 1980; a segunda de 1988 a 1991.

Nos dois casos, em Poughkeepsie, ao norte do estado de Nova York, onde está o centro de pesquisa da IBM, que reúne os melhores especialistas da companhia do mundo. Isso quando éramos (os brasileiros) pouco respeitados, quanto ao aspecto técnico, no exterior.

CW – É fato que, por um lado, existe uma forte demanda de projetos e por outro, poucos profissionais para desenvolvê-los. Esse quadro valoriza o profissional de mainframe, inclusive os mais seniores?

Fadel – Sim. A falta de pessoal especializado em sistemas de grande porte é enorme. Não há gente no meio da pirâmide e quem possui experiência está empregado. Por isso a própria IBM firmou parceria com as universidades do País para formar gente. Posso garantir que oportunidade é o que não falta para especialistas em mainframe. Na empresa, por exemplo, somos extremamente valorizados. Detalhe: há espaço para quem se aposentou e quer voltar e para quem não pretende pendurar as chuteiras.

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