Série de reportagens investiga como os principais players estão lidando com o licenciamento de software frente aos processadores de múltiplos núcleos e a virtualização.
No último mês de julho, a IBM reestruturou seu esquema de licenciamento de software para servidor para lidar com processadores com vários núcleos, deixando de lado as licenças convencionais por processador ou por soquete. Em seu lugar, foi definida uma estrutura mais complexa, mas com uma noção mais correta, baseada em exatamente qual a capacidade de computação que um aplicativo utiliza.
Naturalmente, medir capacidade é algo difícil, por isso, a IBM lançou uma ferramenta gratuita de planejamento e controle, o Tivoli License Compliance Manager. Teoricamente, a TI pode detectar em tempo real quanto uma melhoria de desempenho irá custar e, então, a IBM poderá fazer uma auditoria do uso trimestral e enviar a conta.
Mas havia um problema: a virtualização. A ferramenta de gerenciamento é executada na camada de aplicativos, sendo assim, ela nem sempre consegue distinguir uma máquina virtual de uma real, o que significa que ela informa erroneamente a capacidade total de computação que os aplicativos virtualizados utilizaram. A IBM cancelou o uso da ferramenta e suspendeu as auditorias trimestrais, no começo deste ano, pois ela planeja lançar uma versão atualizada, que trabalha com virtualização, em meados de 2008. Até lá, os clientes estarão por sua própria conta, sem nenhum meio fácil de saber se eles o quanto estão consumindo ? nem mesmo o quanto eles estão devendo. “Neste momento, estamos nos baseando em um sistema de honra”, comenta Roger Kerr, estrategista do setor de software, na IBM.
Embora a experiência da IBM seja a mais constrangedora que já ouvimos, a companhia não está sozinha. Processadores com vários núcleos e a virtualização aumentam a probabilidade de falhas dos modelos-padrão de licenciamento de software, mas não existe acordo sobre uma substituição. E o problema não se restringe às centrais de dados. As questões de licenciamento já retardaram o desenvolvimento das tecnologias de virtualização da Intel, destinadas ao gerenciamento de desktops, ao passo que a Microsoft está utilizando a virtualização de desktops como um meio de direcionar a adoção de suas assinaturas de Garantia de Software (Software Assurance).
Embora ela esteja tentando que a TI corporativa ignore esta situação, é preciso prestar atenção: os esquemas de licenciamento alternativos variam daqueles que já são familiares, como código-aberto e software como serviço (SaaS, na sigla em inglês), aos modelos ainda não testados, como definição de preços com base em memória ou núcleos virtuais. Na melhor das hipóteses, eles poderão significar custos menores e maior flexibilidade. Mas, sejamos realistas ? quando foi que fabricantes de software aderiram a baixos custos e flexibilidade? Na pior das hipóteses, as economias relacionadas a hardware, a partir da consolidação de servidores possibilitada pela virtualização, serão ?devoradas? pelos encargos de licenciamento de software.
A maior parte dos softwares para servidor ainda está licenciada por soquete ou por CPU, o que, essencialmente, significa a mesma coisa. O raciocínio é simples: os chips são fáceis de serem mensurados e provavelmente não sofrerão mudanças durante a vida útil de um servidor, e essas licenças dão à TI um grande incentivo para utilizar os chips mais poderosos com vários núcleos atualmente disponíveis. Mas, obter o máximo de um software sempre exigiu hardware de alto desempenho. A única diferença é que a Intel e a AMD, atualmente, estão mais propensas a melhorar o desempenho aumentando os núcleos, em vez de aumentar a quantidade de megahertz.
O licenciamento por chip faz sentido para software que é executado em hardware claramente definido. Isto costumava significar todos os sistemas operacionais e a maioria dos aplicativos, mas a virtualização está modificando tudo isso, ao acrescentar um hipervisor que encobre o sistema operacional do hardware correspondente. Por isso, não é surpresa que a VMware também tenha adotado o licenciamento por soquete, assim como fizeram os fabricantes do hipervisor de código-aberto, XenSource (adquirida pela Citrix Systems) e Virtual Iron.
O que nos surpreendeu foi que a Microsoft e a Sun Microsystems mantiveram o mesmo modelo para as plataformas Windows e Solaris virtualizadas ? ou seja, tratando cada máquina virtual como um servidor físico com o mesmo número de soquetes que o hardware básico. Por si só, isso já seria um importante obstáculo à virtualização. Mas ambos os fabricantes têm razões que se contrapõem. No caso da Microsoft, as versões mais avançadas do Windows Server 2003 incluem licenças para instâncias virtuais extras do software na mesma CPU ? uma delas, na versão Standard Edition; quatro, na Enterprise Edition, e um número ilimitado na Datacenter Edition. O mesmo se aplicará ao Windows Server 2008. Todas as licenças para servidor da Microsoft também incluem direitos de downgrade, o que significa que uma instância virtual poderá ser substituída pelo Windows 2000 ou Windows NT.
No caso da Sun, a plataforma Solaris 10 inclui Containers, uma tecnologia rival da virtualização com base no hipervisor. A tecnologia Containers está mais próxima de streaming em desktop do que a abordagem da VMware, na qual ela isola aplicativos, sem a necessidade de instâncias separadas de sistemas operacionais para cada um deles. Isso economiza recursos, mas significa que somente aplicativos para o Unix podem ser executados. Além de ser compatível com a plataforma Solaris, a Containers também aceita Linux.
Diferentemente da Sun, a Microsoft não faz diferença entre tecnologias ou fabricantes de virtualização. Provavelmente, isso ocorre porque seu próprio hipervisor Hyper-V (anteriormente, denominado Viridian) deverá ser lançado só no primeiro semestre de 2008. A Microsoft afirma que continuará com suas políticas agnósticas em relação ao hipervisor mesmo depois que o Hyper-V estiver disponível, mas na prática, a maioria dos usuários do Windows Server 2008 fará a migração.
Embora a Microsoft tenha anunciado recentemente que irá desvincular a tecnologia Hyper-V do Windows Server (uma modificação em relação ao anunciado anteriormente, que o Viridian seria parte integral do Windows Server 2008), os dois ainda são projetados para trabalhar em conjunto, e os clientes que escolherem comprar o servidor sem ele economizarão apenas US$28. O Hyper-V representa um desafio para a VMware; a Microsoft já compete com os hipervisores com o Virtual Server 2004, uma ferramenta gratuita que pode executar outros sistemas operacionais ?em cima? do Windows Server 2003, em vez de ?ao lado? dele. No momento, entretanto, o Virtual Server é compatível somente com o Windows como sistema operacional ?convidado?, apesar de a Microsoft ter afirmado que oferecerá compatibilidade com SUSE Linux.
Até o presente momento, a BEA Systems foi a única fabricante que desistiu do licenciamento por soquete, embora somente para LiquidVM, uma plataforma Java virtualizada que elimina o sistema operacional e é executada diretamente no VMware. A LiquidVM é licenciada por instância, independentemente de se uma MV é executada em alguns ciclos de CPUs extras ou se consome todos os recursos em um cluster. Aparentemente, este modelo é relativamente fácil de lidar e provavelmente será atrativo para clientes de grande porte.
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