“Voltamos às raízes com foco total corporativo. Até temos consumer em alguns mercados, mas não buscamos mais essa briga de market share pela dominância de outras plataformas e baixo custo dos aparelhos”. A declaração, proferida por Erlei Guimarães, diretor de negócios e vendas corporativas da BlackBerry para América Latina Sul, mostra como estão os ânimos internos e ressalta o recente posicionamento da fabricante de voltar às suas origens e ser referência ao mundo empresarial.
Antes quase unanimidade em smartphones, a fabricante canadense, uma das responsáveis por popularizar o teclado QWERTY e que se animou quando seus aparelhos caíram nas graças dos consumidores residenciais, passou por momentos difíceis e foi vítima da especulação do mercado que cravou sua venda ou até sua falência em diversas ocasiões. É importante lembrar também que ela também foi vítima de seu próprio posicionamento em achar, em determinados momentos, que os modelos touch screen não “pegariam”. Hoje, por conta de uma série de fatores, a companhia vive um momento impensável há alguns anos. Mas já não há motivo para desespero.
O market share da BlackBerry no último levantamento da IDC foi de apenas 0,5%, mas como frisou o executivo, isso já não é encarado como um problema. Isso porque, ao rever sua estratégia, a companhia foi dividida em quatro grandes áreas de negócios: smartphones, serviços e gerenciamento, QNX (onde estão sistemas embarcados e sistemas operacionais para missão crítica) e BBM (mensageria e rede segura). Todas essas áreas trabalham em sinergia e com um objetivo comum: ganhar espaço no mundo corporativo.
Dentro da estratégia global, a busca por eficiência operacional estava como o principal ponto a ser perseguido inicialmente, seguido por melhoria do caixa e vendas verticais. Em entrevista recente ao Wall Street Journal, o recém-chegado COO da companhia Marty Beard, frisou essa eficiência operacional como questão a ser perseguida o tempo todo e parte dessa busca, como explicou Guimarães ao IT Forum 365, resultou na criação das quatro unidades de negócio. “Na verdade, essa eficiência operacional está sendo antecipada, seria em 18 meses, mas os reflexos já estão surgindo.”
Com essa antecipação, eles já conseguem lançar foco aos próximos passos que são melhoria de caixa e vendas verticais. No caso do caixa, os números do último trimestre divulgado pela empresa (correspondentes ao primeiro trimestre fiscal encerrado em 31 de maio deste ano) mostraram um crescimento, passando de US$ 2,7 bilhões para US$ 3,1 bilhões. No mesmo período, houve ainda um lucro inesperado por analistas de US$ 23 milhões.
Já avaliando as vendas verticais, o executivo afirmou que, globalmente, a companhia identificou grandes oportunidades em governo, financeiro e saúde. Em saúde houve até uma aquisição de participação minoritária na NantHealth, companhia com sede na Califórnia (EUA) e que tem uma série de sistemas baseados em nuvem como para suporte à decisão clínica e pesquisas.
Questionado sobre o tratamento a oportunidades locais, o executivo lembrou que até existe liberdade para isso, mas que, globalmente, identificou-se que essas três verticais podem produzir boas oportunidades para a empresa. Um dos produtos fortes na América Latina, por exemplo, é a plataforma de gestão de dispositivos móveis BES, que hoje gerencia dispositivos BlackBerry, Android e iOS, aqueles com Windows Phone também serão gerenciados a partir de dezembro. “Temos 39% do mercado de MDM no Brasil e 47% na América Latina”, observou Guimarães, lembrando, ainda, que grandes clientes como Itaú e Odebrecht renovaram suas estratégias móveis com produtos da fabricante.
Para o ano que vem, a expectativa é que o BES seja ofertado como serviço em nuvem, o que já entraria até como parte de renovação de portfólio mesmo. A reorganização da companhia e essa busca por mais eficiência operacional, talvez, tenha servido para que as mentes brilhantes que um dia a posicionaram como referência em smartphones vislumbrem novas possibilidades a partir de patentes e tecnologias que a companhia já detém atualmente. Nesse sentido, o Projeto ION é uma dessas possibilidades, que agregará ao discurso da BlackBerry a internet das coisas (IoT), ao ofertar, a partir de um sistema baseado em tecnologia QNX, gestão e tráfego de informações M2M de forma segura.