Neste semestre, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o governo federal anunciaram a criação do Programa Estratégico de Software e Tecnologia de Informação para estimular o crescimento do setor, aumentar a presença de empresas internacionais no mercado nacional e melhorar o desempenho das exportações. Entre todas as necessidades do setor para evitar uma perda de receita até 2020, como mostra um estudo lançado pela SOFTEX, uma das grandes preocupações é, com certeza, a escassez de mão de obra (ou, talentos, como prefiro chamar). O Brasil forma uma pequena quantidade de profissionais capacitados. Há um gargalo grande de qualificação e as empresas têm dificuldade de encontrar capital humano de ponta. É claro que uma melhora orgânica vai acontecendo por pressão da sociedade e da própria evolução, mas o país avançou pouco na questão de educação, e tem problemas estruturais nesse quesito.
Mas não está só na questão da educação o problema. Para dar conta da demanda que vem por aí, a indústria precisa, cada vez mais, de talentos que se envolvam no negócio do cliente, se especializem e tragam resultados mais efetivos, com maior valor agregado. Algo que é impensável se o mercado continuar trabalhando com o modelo corporativo típico das empresas de outsourcing: as tais fábricas de software. Não tenho dúvidas de que os maiores problemas estão na estrutura da indústria, que foi forjada nas décadas de 1980/1990 por meio de arbitragem de custos e estômago para passivos trabalhistas. Esse foco gerou um grande mercado de alocação de mão de obra (no jargão do setor, body shopping, que já demonstra claramente modelo de formação). E é incrível, mas essa ainda é a modalidade de serviço predominante na indústria doméstica, de baixíssimo valor agregado. Na ponta dos fornecedores, aceitou-se como padrão a cultura extrativista de vender para depois contratar, em contraposição ao investimento contínuo em formação de profissionais, criando um ambiente de alta rotatividade (turn-over) e baixa qualidade. O resultado é uma relação débil entre empresas e profissionais, que gera companhias pouco competitivas, funcionários desmotivados e escassez de talentos para atender a demanda do mercado.
Para mim, a solução está no desenvolvimento do que chamo de Times de Alta Performance. Sim, eu sei que a expressão pode parecer demagogia para o mercado, mas minha proposta não é a criação de um slogan marqueteiro, e sim uma mudança cultural e de processos, que seja efetiva, e que capacite o mesmo número de profissionais que temos hoje a fazer melhor e trazer mais resultados. Essa proposta surge como um contraponto ao modelo clássico de fábrica de software, onde a relação entre TI e negócio é baseada em especificações, que serão codificadas de maneira acrítica, com mão de obra de um baixo custo e rotatividade. Tudo o que pontuei aqui, anteriormente. A questão é que nessas fábricas, o foco é o desenvolvimento de uma lista de funcionalidades e não a resolução real dos problemas de negócio dos clientes.
Minha proposta é uma abordagem baseada na orquestração de talentos para montar equipes ecléticas e multiculturais, com conhecimento dos contextos tecnológicos e de negócios, e uma atitude voltada para valor e inovação. Essas equipes se especializam nos negócios dos clientes e, ao longo do tempo, acumulam conhecimentos que as permitem alcançar níveis inéditos de qualidade e produtividade e contribuir com as estratégias de negócio do cliente. Parece claro que não há sentido em montar uma equipe para disputar apenas um campeonato e medidas internas nos mostram, claramente, que a performance de uma equipe nessas condições praticamente dobra a partir dos quarto mês.
A ideia é que práticas maduras de gestão de demanda, engenharia de valor e entrega ágil sejam os pilares de uma relação de longo prazo entre fornecedor e cliente. Complexo? Eu diria trabalhoso e gradativo. Uma mudança que tiraria a indústria da zona de conforto para trazer melhores resultados no médio e longo prazos. Mas algo totalmente possível, que já estou vendo acontecer, e cujos resultados, mesmo que lentos, surpreendem o mercado.