A bioinformática desponta como um dos ramos mais promissores da tecnologia da informação e promete abrir novas oportunidades para profissionais ingressarem nessa instigante carreira. Entenda a profissão e o que é preciso para entrar no mercado.
Erivelto Tadeu
Para alguns, o ambiente de trabalho ainda é a clássica sala branca, cheia de pipetas e tubos de ensaio com soluções e culturas de bactérias, de um laboratório de biologia. Para outros, o local onde desenvolvem suas pesquisas se assemelha mais a um CPD, embora bem menor e sem o aspecto asséptico dos antigos centros de processamento de dados. Em comum, eles têm o computador como a principal ferramenta de trabalho. São biólogos com conhecimento de informática ou profissionais de computação com especialização em biotecnologia: os bioinformatas, como também são chamados.
Por enquanto, os bioinformatas ainda formam um pequeno exército de pesquisadores, cientistas e profissionais de computação, cujo alvo de estudos vão de seqüenciamentos genéticos a substâncias de plantas e moléculas para elaboração de novos remédios. É uma profissão ainda em formação, mas sem dúvida é uma das carreiras do futuro, afirma João Meidanis, fundador da Scylla, empresa que desenvolve software para seqüenciamento genômico. Ele observa que a profissão de bioinformata nem é regulamentada, embora não veja isso como problema.
Para Meidanis, o profissional que pretende seguir carreira precisa ter sólidos conhecimentos de informática e dominar o vocabulário de biologia. Há cursos de especialização acadêmica e ele também pode ir se familiarizando com os termos da área no trabalho do dia-a-dia.
A própria trajetória de Meidanes é um exemplo de como é possível alcançar um nível bastante elevado de competência nessa nova área. Com formação em ciência da computação, ele foi um dos primeiros profissionais brasileiros a se especializar em bioinformática. O interesse dele pela carreira foi despertado em 1990, quando começou a estudar o assunto, e se consolidou alguns anos depois com a participação como pesquisador em três projetos importantes desenvolvidos na Universidade de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo. O mais conhecido deles foi o mapeamento do genoma da bactéria Xyllela fastidiosa, que provoca a praga amarelinho nos laranjais, o maior sucesso científico brasileiro dos últimos anos, reconhecido internacionalmente. Os outros dois projetos nos quais trabalhou foram o de seqüenciamento genético da Xanthomonas citri, bactéria causadora do cancro cítrico, e um denominado Sucest, que esquadrinhou todo código genético da cana-de-açúcar.
Foi durante a participação nesses projetos, aliás, que Meidanes teve a idéia de criar a Scylla, com outros dois sócios. A empresa foi constituída há dois anos com recursos da Votorantim Ventures, fundo de capital de risco do grupo Votorantim, e funcionou até dois meses atrás na incubadora da companhia. Agora, em vôo solo, o desafio é tornar o empreendimento economicamente sustentável e crescer. Atualmente, a Scylla conta apenas com sete funcionários, mas todos com formação em ciência da computação.
O mapeamento genético da Xyllela fastidiosa, executado dentro do Projeto Genoma, funcionou na verdade como um celeiro de bioinformatas e deu margem para o surgimento de outras empresas. Esse é o caso da Alellyx, voltada ao desenvolvimento de produtos por meio do seqüenciamento do genoma de espécies agrícolas ou de causadores de pragas. Também financiada pela Votorantim Ventures, a empresa foi criada há dois anos por três biólogos e dois bioinformatas, entre estes, João Paulo Kitajima, formado em análise de sistemas.
Para ele, o profissional da área tem de conhecer a teoria básica da biologia computacional e saber trabalhar com ferramentas de bioinformática, para comparar seqüências de genes e montar fragmentos de DNA. Kitajima observa que há, na realidade, dois tipos de bioinformata: aquele que desenvolve sistemas e programas e o que apenas usa as ferramentas. Mas o pré-requisito mais importante, na opinião dele, é que o profissional saber dialogar com o biólogo.
O analista de sistemas diz que atualmente é difícil encontrar profissionais de bioinformática aplicada, que tenham experiência no setor privado. Além disso, ele alega que as universidades, em geral, têm linhas de pesquisas extremamente teóricas. Ser um pesquisador acadêmico, portanto, não significa necessariamente que seja um profissional preparado para trabalhar no setor privado. Ele pode ser aproveitado, mas às vezes é mais interessante contratar um analista de sistemas de mercado e treiná-lo do que pegar na universidade, admite Kitajima.
Para ingressar na bioinformática é importante que o profissional tenha familiaridade com sistemas operacionais e banco de dados, além de um bom conhecimento de programação – Sandro de Souza, biólogo do Instituto Ludwig de Pesquisas contra o Câncer
A Alellyx (que significa Xylella escrito ao contrário, mudando-se apenas a última letra l) emprega hoje 90 funcionários, dos quais cinco são bioinformatas, sem incluir Kitajima, que hoje gerencia a equipe de informática da empresa, composta por dez pessoas. Ele avalia que há boas as perspectivas profissionais nessa área, principalmente para aqueles que vislumbram investir na carreira fora do País. Aqui, o crescimento da bioinformática se dará de forma lenta e gradual. Mas acredito que em dez anos começaremos a ter um aumento expressivo de empresas.
De todo modo, Kitajima diz que, na média, o salário hoje de um bioinformata é maior do que o de um analista de sistemas, entre R$ 3 mil a R$ 4 mil. Para ele, quem trabalha nessa área, no entanto, tem a oportunidade de colher outro grande dividendo, que é lidar com a ciência da vida.
Excelência profissional
Os cientistas são unânimes em reconhecer que o surgimento da figura do bioinformata no País só foi possível graças ao empenho de instituições de apoio à ciência, mais notadamente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que financiou e coordenou a execução do Projeto Genoma. A situação do Brasil é bastante boa na área de bioinformática porque com o Projeto Genoma criou-se um tradição e um nível de excelência profissional comparável ao dos país desenvolvidos, diz o biólogo Sandro de Souza, do Instituto Ludwig de Pesquisas contra o Câncer.
O Laboratório de Biologia Computacional do Instituto Ludwig foi, por sinal, o coordenador do projeto, que gerou mais de 1 milhão de seqüências de células cancerosas, o que tornou o Brasil o segundo país do mundo com a maior contribuição no mapeamento da doença, atrás apenas dos Estados Unidos. E é ali que Souza, que tem sob sua coordenação mais 15 pessoas, entre estudantes de biologia e técnicos de computação, desenvolve pesquisas em busca de genes ativos em células cancerosas.
Com Ph.D em bioinformática em Harvard, o biólogo lista os pré-requisitos básicos que a pessoa que deseja ingressar no ramo da bioinformática deve possuir. É importante que ele tenha familiaridade com sistemas operacionais e banco de dados, além de um bom conhecimento de programação, principalmente da linguagem Perl, usada por cerca de 90% dos laboratórios, diz Souza. Ele observa que o bioinformata é um dos profissionais mais procurados nos Estados Unidos pelas empresas de biotecnologia. Mas diz que no Brasil a busca por esses talentos ainda é pequena. A diferença é que, enquanto lá a maioria trabalha na indústria, aqui 95% dos profissionais ainda estão nas universidades e centros de pesquisa. E o crescimento da profissão só deve ocorrer quando houver a transferência desses especialistas para o setor produtivo, defende Souza.
Além do crescimento do mercado, a expansão da carreira de bioinformata, na opinião dos profissionais que já atuam na área, vai depender também do aumento do número de cursos de especialização no País. Atualmente, existem apenas dois cursos de pós-graduação em bioinformática, em nível de mestrado e doutorado, aprovados pelo Ministério da Educação. Um deles é oferecido pela USP de São Carlos, e o outro pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) também oferece um curso de especialização latu sensu em bioinformática, cuja proposta é permitir aos estudantes o domínio das mais recentes ferramentas e técnicas de bioinformática, assim como adquirir conhecimento multidisciplinar em biologia molecular computacional. Mas, sem dúvida, ainda é pouco diante do potencial do Brasil nessa área.
O informata da Biologia
Artigo de Marcelo Mariaca
A carreira de bioinformata é fruto do feliz casamento entre a tecnologia de informação e as ciências biológicas. Em linhas gerais, esse profissional é responsável por prover soluções de informática para biólogos, o que requer conhecimento profundo das duas áreas. Ser bioinformata exige familiaridade com os princípios e técnicas laboratoriais da biologia molecular, além de domínio da ciência da computação, que, por sinal, é a formação preferencial.
Em países com economias mais desenvolvidas, o profissional pode ter ganhos mensais de até R$ 36 mil, justificados pela extensa lista de habilidades e conhecimentos técnicos que deve apresentar. O sucesso na carreira depende de saber criar soluções resolvendo problemas complexos por meio do uso da computação eficiente. A posição requer também destreza em trabalhar com hardware, software, brainware e peopleware e capacidade de trabalhar com equipes multidisciplinares, formadas por agrônomos, biólogos, químicos e farmacêuticos.
De maneira geral, o mercado de trabalho requer dos profissionais excelência nas qualificações técnicas, mas também valoriza as habilidades comportamentais, e com o bioinformata não é diferente. Como em todo processo científico, ele trabalhará constantemente com descobertas, o que significa que nem sempre saberá onde chegar, nem quais serão os resultados finais. Portanto, o bom bioinformata deve possuir, além de um razoável QI (quociente de inteligência), um privilegiado QE (quociente emocional), pois esta lhe dará calma, paciência, tolerância e deferência, além da empatia vital para conseguir colocar-se no lugar do cientista. Profissionais de TI que trabalham em ambientes de pesquisa e desenvolvimento de grandes centros acadêmicos ou empresas costumam desenvolver esses talentos, junto com a habilidade de se relacionar com pessoas às vezes muito diferentes.
O mercado de trabalho para o bioinformata é amplo e em desenvolvimento, principalmente no Brasil. Ele pode atuar em laboratórios farmacêuticos ou veterinários envolvido em pesquisas genéticas ou na descoberta de novas curas e tratamentos e nos grandes centros acadêmicos. Um outro bom campo é o de agronegócios, no qual ele irá desenvolver pesquisas que auxiliem na descoberta de soluções para evitar doenças ou genes resistentes, causadores de má formação ou degeneração animal ou vegetal.
A bioinformática exige profissionais técnicos, que entendam muito de software em especial de banco de dados, armazenamento e programação e de configuração e manutenção de servidores. O bioinformata não precisa ser cientista ou biólogo, mas dever ter simpatia e atração pelos processos científicos, estudos ordenados e pesquisa. O Brasil reserva um bom futuro para a carreira, decorrente da união de três forças previsíveis: a crescente importância do país como fornecedor de alimentos para o mundo, o investimento de empresas e universidades brasileiras, que precisarão fazer sua pesquisa avançada no país, e o destaque atual e futuro das ferramentas de TI, que permitem a comunicação instantânea no mundo inteiro.
|Computerworld – Edição 409 – 26/05/2004|