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Lightera
Nokia
Scala Data Centers

Scala, Lightera e Nokia usam o ar para atingir limite da luz e reduzir latência em 32%

Publicado:
07/11/2025 às 16:46
Pamela Sousa
Pamela Sousa
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8 minutos
Da esquerda para a direita: Alberto Rios, Sales Director Cloud Providers LAT na NOKIA, Henrique Cesar Shiroma, Datacenter Key Account Manager Sales Brazil da Lightera, Fabio Augusto Marchiori, Account Manager and Metro and Transport Sales Specialist da VIAVI Solutions, Alejandro Rivera, Business Development Optics Networks na NOKIA, Murilo Pugliese, Senior Network Engineering Manager da Scala Data Centers e Celso Motizuqui, VP Sales LatAm Lightera. Imagem: Divulgação
Da esquerda para a direita: Alberto Rios, Sales Director Cloud Providers LAT na NOKIA, Henrique Cesar Shiroma, Datacenter Key Account Manager Sales Brazil da Lightera, Fabio Augusto Marchiori, Account Manager and Metro and Transport Sales Specialist da VIAVI Solutions, Alejandro Rivera, Business Development Optics Networks na NOKIA, Murilo Pugliese, Senior Network Engineering Manager da Scala Data Centers e Celso Motizuqui, VP Sales LatAm Lightera. Imagem: Divulgação

No campus Tamboré da Scala Data Centers, em Barueri*, uma sala de equipamentos abriga o que pode ser um dos marcos mais significativos da infraestrutura digital latino-americana. Ali, entre racks perfeitamente alinhados e cabos que percorrem dutos subterrâneos envoltos em concreto, a primeira prova de conceito com fibra óptica de núcleo oco do hemisfério sul demonstrou que ainda há espaço para ganhos expressivos em um campo que parecia ter atingido seus limites físicos.

O resultado: 32% de redução na latência em comparação com fibras convencionais. Para dimensionar, imagine que São Paulo ficasse digitalmente 32% mais próxima de Vitória, no Espírito Santo. Ou que o raio de alcance de um data center crescesse 46% mantendo o mesmo tempo de resposta. Em um mundo onde microsegundos determinam bilhões em transações financeiras ou a eficiência de modelos de inteligência artificial que consomem fortunas em GPUs ociosas aguardando sincronização, essa diferença representa ganho competitivo real.

A história da fibra óptica sempre foi sobre fazer a luz viajar mais rápido através de meios cada vez mais transparentes. Desde os anos 1970, quando o Bell Labs desenvolveu as primeiras fibras comerciais, a luz sempre percorreu um núcleo sólido de sílica ultrapura — um material impressionante, quase transparente, mas que inevitavelmente oferece resistência. O resultado: velocidade de aproximadamente 204.190 quilômetros por segundo. Rápido, mas ainda distante dos 299.792 km/s da luz no vácuo.

A fibra de núcleo oco muda essa equação. Em vez de sílica sólida, a luz viaja através do ar, confinada por uma estrutura de “colmeia” reflexiva que a mantém no caminho correto. Com isso, a velocidade salta para 298.301 km/s — praticamente o limite teórico. “Estamos basicamente chegando no limite da velocidade de transmissão da luz”, afirma Murilo Pugliese, gerente sênior de engenharia de redes da Scala, durante apresentação técnica para especialistas. “Para cada quilômetro, você economiza 1,55 microsegundos em transmissão unidirecional. Parece pouco, mas quando multiplica isso por centenas de milhares de ciclos de sincronização em clusters de IA, o ganho acumulado se torna expressivo.”

A prova de conceito reuniu expertise complementar de quatro empresas de tecnologia. A Scala forneceu a infraestrutura — dutos subterrâneos, rotas redundantes e subdutos exclusivos que garantem que nenhum cabo compartilhe espaço com outro. A Lightera, novo brand global da Furukawa Electric, trouxe o cabo AccuCore HCF™, tecnologia que exige até equipamentos especiais para fusão. “Nossa máquina utiliza o que chamamos de ‘ring of fire’ — um anel de aquecimento”, explica Henrique Shiroma, gerente de contas da Lightera. “Se jogássemos o raio de um equipamento convencional, que literalmente ‘cozinha’ a fibra, deformaríamos tudo. É como trabalhar com cristal versus vidro comum.”

A Nokia entrou com a plataforma de transmissão óptica 1830 PSI-M, compacta mas capaz de transportar até 1,2 terabits por segundo em um único canal. “A ideia foi testar não apenas a fibra isoladamente, mas com eletrônica real, incluindo criptografia”, diz Alejandro Rivera, especialista em redes ópticas da Nokia. “Porque de nada adianta uma tecnologia maravilhosa se você não tiver o equipamento que rode por cima dela.” A VIAVI Solutions forneceu instrumentação de precisão capaz de capturar variações de nanosegundos que a maioria dos equipamentos convencionais não detecta. A MagicComp executou a instalação física.

Leia também: Google negocia ampliar investimento na Anthropic, avaliada em mais de US$ 350 bilhões

A dinâmica dos testes foi pensada para otimizar tempo. Idealmente, um enlace de fibra conectaria dois prédios distantes, mas para agilizar as medições, a equipe manteve ambas as pontas do cabo no mesmo rack. O cabo saía do prédio, percorria 1,1 quilômetro pelo campus — passando por aqueles dutos subterrâneos protegidos por malha de aço galvanizado — e retornava pela outra face. Primeiro, estabeleceram a linha de base com fibra convencional. Depois, trocaram os jumpers para a fibra de núcleo oco. O resultado confirmou a teoria: 31,55% de redução na latência de propagação pura.

Os testes avançaram. A equipe inseriu o equipamento de transmissão da Nokia, variando velocidades de 400 gigabits até 1,2 terabits, testando com e sem criptografia em camada óptica. Em enlaces curtos como o teste de 1,1 km, a eletrônica adiciona latência fixa que proporcionalmente reduz o ganho percentual para cerca de 8%. Pugliese contextualiza: “Quando a tecnologia evoluir para enlaces mais longos — o que está no roadmap de desenvolvimento — o percentual da fibra volta a predominar, e os números de redução se aproximam novamente dos 32%.”

As aplicações práticas são concretas. No mundo da inteligência artificial, modelos de treinamento com clusters gigantescos dependem de sincronização constante entre milhares de GPUs. Cada microsegundo de atraso se multiplica por centenas de milhares de ciclos. “Com a fibra de núcleo oco, é como se você estivesse estendendo o fabric de IA de um prédio para outro sem penalizar a latência”, afirma Pugliese. “Você expande a capacidade de processamento mantendo a eficiência.” Para processadores que custam fortunas, qualquer redução no tempo ocioso representa economia direta.

No mercado financeiro, onde operações de high-frequency trading dependem de algoritmos que monitoram oscilações microscópicas de preços e executam milhares de transações por segundo, microsegundos determinam lucros ou perdas. Para esse segmento, a fibra de núcleo oco já é realidade em algumas conexões críticas entre bolsas de valores e corretoras.

A aplicação estratégica para o Brasil pode estar na expansão geográfica de data centers. Com a dificuldade crescente de encontrar grandes áreas com disponibilidade energética próximas aos centros urbanos, cada novo projeto enfrenta o que Pugliese chama de “orçamento de latência” — um limite rígido de quanto tempo a aplicação pode tolerar na comunicação entre pontos. “Quando você muda para hollow core, expande em 46% o raio de cobertura da sua prospecção. Isso significa poder considerar terrenos mais distantes, com energia disponível e custos mais baixos, sem comprometer o desempenho.”

O timing é relevante. Os Estados Unidos enfrentam shortage crítico de energia elétrica para data centers, problema que deve levar cerca de dois anos para ser resolvido. Enquanto isso, workloads que não precisam necessariamente estar próximos ao usuário final — como modelos de treinamento de IA — procuram alternativas. “O Brasil tem tudo o que esses workloads precisam”, argumenta Pugliese. “Terra, energia renovável, disponibilidade no grid. E estamos superando barreiras regulatórias, como o Redata, que reduz 40% a tributação na importação de hardware do setor.”

A Scala, com 13 data centers ativos e 5 em construção no Brasil, Chile, México e Colômbia, já investiu mais de R$ 12 bilhões. A empresa possui landbank de 12 milhões de metros quadrados e 6,1 gigawatts de capacidade energética futura — toda renovável, abastecida por 9,8 terawatts-hora de energia limpa contratada até 2039. “A inovação está no nosso DNA”, diz Agostinho Villela, CTO da Scala. “Possibilitar o primeiro teste de fibra de núcleo oco nas Américas nos posiciona na fronteira do que é fisicamente possível em desempenho digital.”

A tecnologia também endereça questões ambientais. As capas dos cabos da Lightera são fabricadas com polímeros de cana-de-açúcar, capturando CO2 tanto na fabricação quanto proporcionando descarte biodegradável. A possibilidade de alcançar áreas mais remotas reduz o consumo imobiliário em regiões urbanas supervalorizadas, permitindo aproveitar fontes de energia renovável em localizações antes inviáveis por restrições de latência.

A implementação seguirá três estágios. No curto prazo, conexões intra-site e intra-campus — o cenário testado — permitindo estender fabrics de AI entre prédios. No médio prazo, conexões inter-campus criando zonas de disponibilidade interconectadas para distribuição de carga. No longo prazo, enlaces metropolitanos longos, como entre estações de cabos submarinos e campus de data centers. “É especialmente relevante para workloads offshore”, diz Pugliese. “Processar aqui, mas servir lá fora. Para isso, a conexão entre o cabo submarino e nossos campus precisa ser a mais rápida possível.”

Felipe Leão, líder de redes ópticas para América Latina da Nokia, resume: “É importante começar a investir em uma rede de transporte que atenda não apenas às demandas atuais, mas que esteja preparada para as demandas futuras.” As três empresas já estudam implantações em escala de produção, focando em aplicações de ultrabaixa latência e alto volume de dados.

A jornalista visitou o campus a convite das empresas

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Pamela Sousa é repórter no IT Forum, graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Com mais de três anos de experiência na produção de conteúdo, especializa-se na cobertura de tecnologia, inteligência artificial e inovação, desenvolvendo reportagens aprofundadas e artigos analíticos sobre o impacto dessas tecnologias nos negócios e na sociedade.

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