Muito além de competências técnicas, essas habilidades estão na crista da onda na nova economia
Hoje, já não bastam as hard skills, competências técnicas que recheiam tradicionalmente os currículos. É preciso ir além e apresentar as cobiçadas soft skills que, de acordo com a consultoria global Gartner, são habilidades transversais como pensamento crítico, solução de problemas, conhecimento de negócios, facilidade de comunicação e sensibilidade, importantes ingredientes do perfil do profissional da nova era.
Não por acaso, a consultoria prevê que até 2021, 40% da equipe de TI será mais versátil que a própria tecnologia, porque esses profissionais conseguirão desempenhar variados papéis, a maioria direcionada a negócios.
As empresas querem profissionais que saibam fazer muito bem a gestão de pessoas, considerando que são as pessoas que dão a elas o valor que têm. É o que afirma Daniel de Paiva, Senior Partner, responsável pelas áreas de Tecnologia e Energia da Havik, empresa atuante em Executive Search.
“Na busca por profissionais da nova era, ganha pontos o candidato que é dono de uma comunicação clara, objetiva e que se manifesta de forma coerente. Nesse cenário, o prolixo sofre graves riscos”, alerta.
Além disso, acrescenta o executivo, estão no foco das organizações profissionais que primam por eficiência, com senso crítico, visão de orçamento, produtividade, alta capacidade de gestão do tempo (do gestor e da sua equipe), avaliação de risco, perfil digital e alinhamento com a inovação, controle crítico diante do ambiente digital, antenado e globalizado, ousado e curioso.
“Afinal, estamos falando de quem irá compor grupos multidisciplinares, que estão em alta nas empresas, por conta de novos modelos de trabalho, que reúnem profissionais com diferentes habilidades, competências e gerações”, diz.
Paiva destaca que não faz muito tempo, o líder buscava status, uma ampla sala ou ambiente personalizado de trabalho. “Hoje, ele busca estilo, integra-se à equipe e a sala não tem paredes, prima pela colaboração, compartilhamento de ideias, proximidade”, destaca.
Na nova economia, ele diz, o profissional é um indisciplinado saudável, ou seja, um revolucionário. “O que é muito diferente do ‘revoltado’, que sabota o bom ambiente. O revolucionário traz descobertas, visão diferenciada e melhorias.”
Entre as soft skills cobiçadas pelo mercado também estão habilidades específicas, que preparem para um profissional econômico-utilitário; capacidade de aprendizado rápido; cursos de cursos de curta duração que proporcionem ampliação de capacidade produtiva; capacidade de concentração.
Muitas das soft skills, até bem pouco tempo, imaginava-se serem impossíveis de se aprender na escola, avalia Paiva. Mas, segundo ele, já existem cursos breves, que duram entre duas e três semanas, orientados a competências comportamentais. “A Singularity University e a Inova Business School, por exemplo, ensinam técnicas que podem despertar habilidades nos profissionais como até mesmo sensibilidade e capacidade de comunicação”, diz.
Mas qual é o padrão do profissional da era digital? “Não há um padrão. Contudo, certamente ele precisa ser um profissional com visão do que ele é, onde quer chegar e quais são seus objetivos. Tudo isso, alinhado com ‘onde a empresa quer chegar’. A partir daí, acontece o direcionamento”, ensina.
Do outro lado do balcão
“Eu me considero preparada para exercer minhas funções de acordo com as exigências da era digital. Mas vale destacar que nunca estamos preparados, pois é uma evolução constante, especialmente considerando o surgimento de novas tecnologias e metodologias que exigem uma qualificação contínua para estar sempre em linha com o cenário”, diz Patrícia Cavalcanti, diretora de Varejo da Schneider Eletric.
Ela dá uma dica: “É importante se manter conectado, estar atento ao que está acontecendo no mundo e por isso é vital estar nas redes sociais, como LinkedIn e Instagram (que ganhou escopo corporativo)”.
Na verdade, de acordo com Patrícia, a era digital a deixou mais confortável. Porque gosta muito de colocar ideias em prática. “Não me contento em somente aprender, quero testar, ajustar e fazer acontecer.”
Hoje, vive mergulhada em vários projetos. “Antes, o mergulho era mais longo e eu e minha equipe tínhamos de conviver com a dúvida: ‘Será que vai dar certo?’. Agora, é diferente, corremos o risco, porque entregamos o projeto em partes, apoiado em metodologias ágeis.
Dessa forma, identificamos mais rapidamente as falhas e solucionamos na mesma velocidade, de acordo com o feedback do cliente e sugestões”, garante.
Patrícia revela que esse cenário instigante e veloz é o que mais a empolga, porque traz esse modelo de trabalho no seu DNA. “Na nova era, não há nada de errado em arriscar, desde que seja em ações rápidas e efetivas. O digital foi fundamental para proporcionar a agilidade na realização de projetos e gosto disso.”
O mercado precisa de algo além, ela avisa: facilidade de comunicação, colaboração e sensibilidade que, na maior parte das vezes não se aprende na escola. “Eu não tenho dificuldades com essas novas exigências. Todas elas fazem parte do meu perfil e me ajudam muito a me adequar no dia a dia com minha equipe. E, certamente, trazem resultados.”
Essa facilidade de adequação a faz entender que, ao trabalhar com profissionais de diferentes habilidades, competências e gerações, é preciso extrair o máximo de cada um para o grupo multidisciplinar. “Costumo dizer que ‘temos de calçar o sapato da equipe jovem’.”
Nessa jornada de transformações, Patrícia alerta que teve de desenvolver a capacidade de liderança no sentido de integrar de maneira harmoniosa diferentes gerações. “Esse é o maior desafio: conviver, colaborar, compartilhar e aprender com jovens e experientes em todas as ações. E, para isso, me considero de mente aberta e apta a ouvir, sempre.”
E mais: “Para liderar uma equipe é preciso promover o engajamento, porque ninguém cria nada sozinho. Essa soft skill também é necessária”.